Workshops
Quanto custa um workshop?
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- Publicado em 12-10-2012
Ao organizar um recente percurso fotográfico em Mafra fui confrontado com o comentário de alguém que achava excessivo o preço de 70 euros. O que justifica escrever este artigo sobre o custo de preparar cada saída deste tipo. As minhas, pelo menos...
Pedir 70 euros por um workshop ou fototour é caro? Alguns acham que sim. E comparam alhos com bugalhos. Um exemplo, para encurtarmos a conversa. Vou directo a algo que conheço bem em vez de criar situações hipotéticas.
Este meu recente percurso fotográfico realizou-se na Tapada Nacional de Mafra, para apreciar a brama dos veados e gamos. Para quem o desejar, existe uma visita normal, não pensada para fotógrafos, à Tapada, de madrugada, para ver a brama: custa 20 euros por pessoa. São cerca de 3 horas de percurso pedestre, num grupo que pode ter uma vintena de pessoas, que pretendem passear e ver o espectáculo. E pronto.
Comprar esta oferta com a proposta de um percurso fotográfico é errado. Porque na visita que organizo, e que começa com encontro de madrugada, entramos na Tapada às seis da manhã, um autocarro deposita-nos num ponto alto da Tapada, onde chegamos meia-hora depois, e dali fazemos a pé um trilho para assistirmos ao nascer do dia a partir de um dos pontos mais altos da Tapada Nacional de Mafra.
O conceito deste percurso é fotográfico, pelo que o grupo, por norma pequeno, tem todo o tempo do Mundo para fotografar. E as pessoas podem ocupar-se a fotografar diferentes temas, nas zonas por onde vamos passando e parando. Durante todo este tempo têm o meu acompanhamento fotográfico, ajuda na resolução de problemas e dúvidas.
Dado que conheço a Tapada bem, posso conduzir as pessoas a alguns dos melhores pontos para fotografar, até a zonas fora dos trilhos marcados, algo que não se verifica na visita normal. Esse conhecimento resulta de passar muitos dias na Tapada, quer a fotografar para o website, que mantenho, ou para outras necessidades da TNM em termos de imagens. E por cada saída destas, nos dias antes faço diversas visitas ao terreno, para confirmar as melhores opções e actualizar informações.
Além de outras visitas, a saída da Brama deste ano levou-me a fazer três explorações distintas, de um dia inteiro cada, nas duas últimas semanas antes da realização do percurso. Paralelamente produzi um eBook de apoio aos participantes, com 40 páginas, com indicações importantes, explicações e imagens que ilustram o que é possível ver na Tapada. São pelo menos quatro dias de trabalho preparatório. Começa a perceber-se porque custa 70 euros por pessoa uma saída destas: Além de que parte do dinheiro destes percursos serve para ajudar na manutenção dos animais da TNM, um legado do tempo dos Reis que é importante preservar. Esse é um acordo que sempre quis fazer e uma das razões que me levou a procurar autorização para organizar actividades fotográficas na Tapada.
No dia do percurso entrámos na Tapada às seis da manhã e saímos da Tapada já depois das 17 horas da tarde desse dia. Uma experiência única que se traduz, para as pessoas, numa descoberta dos ritmos da Tapada de Mafra ao longo de um dia de quase 12 horas. E estes costumam ser os horários das saídas que organizo. De facto, a generalidade das saídas estende-se por muitas horas.
Mas a experiência não acaba ali. Após o percurso os participantes são desafiados a seleccionar imagens para um eBook com trabalho do grupo que mostra como cada um viu o dia. Cada fotógrafo é desafiado a apresentar uma série de fotos e um texto alusivo.
O meu objectivo com o eBook é sempre o mesmo: prolongar a experiência para lá do momento do clic. É na disciplina da continuação do trabalho encetado no campo que se ganha verdadeiramente novos horizontes na fotografia. É essa disciplina que pretendo inculcar aos participantes, através de uma metodologia de trabalho que os leva da captura até ao ponto final, de construção de algo com uma selecção das fotos do dia.
Essa forma de organizar processos narrativos é importante quando se quer fazer da fotografia mais do que uma simples actividade colectora de fotos que ficam guardadas no disco rígido. Nesse sentido o eBook exige uma pós-produção que obriga a editar as fotos para utilização de uma dezena – algo que faz parte da disciplina de fotografar mas é muitas vezes esquecido.
Ao pedir aos participantes que escolham até 10 fotos estou a fazer com que exercitem a capacidade de síntese, para construirem uma narrativa coesa mas ao mesmo tempo diversa nos aspectos abordados, que retrata a interpretação que cada um tem do que viveu. Ao lançar o desafio para o fazerem estou a abrir as portas à experiência de passagem para o lado do editor fotográfico, que tem de pegar numa série de fotografias e dar-lhes um fio condutor.
É algo que é especialmente difícil para um autor fazer com as suas fotos, dada a mescla de sentimentos que nutre por cada uma delas, por diferentes razões. Mas por isso mesmo este desafio que integra sempre os meus passeios é uma ferramenta essencial para fazer com que as pessoas cresçam como fotógrafos. E participar num percurso só faz sentido quando se pretende dar continuidade ao mesmo seguindo todo o processo que culmina no eBook.
Finalmente, este eBook, além de ser um exercício no que respeita a necessidade de edição dos portfolios individuais, é um trabalho que serve de baliza temporal para os conhecimentos e prática de cada participante. Através das fotos nele publicadas é possível a cada autor comparar as suas Visões com as de outros participantes, e avaliar as suas perspectivas face às do grupo. Acho que essa possibilidade de através da reunião de algumas dezenas de fotos estudar o que um grupo de pessoas fez ante as mesmas situações é uma lição da diversidade da fotografia.
O eBook serve ainda, anos mais tarde, de memória de percurso, ao mesmo tempo pessoal e comparativo. De facto, o grupo de pessoas com que tenho fotografado nestes dois últimos anos, pode neste momento olhar para trás e verificar não só a sua progressão enquanto individuos mas também como colectivo de fotografia, através de diversos eBooks produzidos. Como acredito, pessoalmente, que a fotografia é uma actividade solitária no registo – algo que tento implementar no terreno através de uma postura de Fotografia Contemplativa... que as pessoas são livres de aceitar (ou não), mas que lhes dá outras ferramentas de Visão, se a adoptarem – mas de comunidade quando se chega ao momento de partilha, a instituição dos eBooks como uma extensão natural das saídas que organizo revela-se uma excelente ferramenta de trabalho que permite – através dos desafios que cria – agilizar métodos de organização do trabalho.
Isso contribui para acelerar a aprendizagem não só das técnicas no terreno mas de toda uma linguagem narrativa que se estende à produção dos eBooks. Ao participarem activamente na prepraração dos imagens para estes eBooks os autores ganham a vontade de produzirem também os seus, algo que pode ser apreendido num outro módulo que, pela minha experiência e conhecimento, posso ensinar aos interessados, usando o Adobe Lightroom 4 neste momento a minha ferramenta de eleição para produção de livros/eBooks de fotografia.
Todo o trabalho que envolve, portanto, cada saída que organizo, justifica o valor de 70 euros por norma pedido aos participantes. As saídas que organizo nunca têm muitos participantes, mas tenho definido que por menos de 250 euros para um dia de trabalho não me mexo. Isso significa que necessito de ter pelo menos 4 pessoas numa saída privada (e mais numa com um parceiro), valor que não é só lucro, dado que existem sempre custos ligados à preparação de cada actividade. Comecei agora a preparar um dia a fotografar cogumelos e o Outono na Tapada, e fiz ontem a primeira de uma série de visitas a marcar pontos eventualmente interessantes e explorar eventuais cenários para desafiar as pessoas. Isto tem custos.
Paralelamente a percursos na Tapada organizo neste momento os Roteiros Fotográficos de Sintra, actividade do Centro de Cultura e Desporto Sintrense, da CMS, que tenderá a ter um carácter mensal. Fiz dois percursos antes do Outono e agora estamos a preparar novas saídas. Essas saídas são mais baratas, porque se destinam a grupos maiores e a um nível básico em termos de fotografia. É uma boa oportunidade para conhecer aspectos do concelho e misturar isso com algumas noções de fotografia. E demonstram que existe escolha em termos de preços de workshops e fototours.
Eu sei que existem por aí propostas muito baratas, com as quais não posso competir. Mas os comentários que tenho das pessoas que participam nas - poucas - saídas que organizo sugerem que não tenho de preocupar-me. Eu prefiro seguir um caminho em que não galgo pelas costas de outros a pensar que vou subir alto... para um destes dias me espetar no chão por falta de suporte financeiro. Porque preciso de viver do que faço e sei o esforço investido na preparação de cada passeio. E o acompanhamento que dou posteriormente às pessoas. Isso vale alguma coisa nos tempos que correm.








































































