Crónicas de João M. Gil
Serendipidade e um corvo
- Detalhes
- Publicado em 30-04-2012
Sempre apreciei os corvos pela sua inteligência e pelas idades que chegam a ter. Há na minha mente também sempre uma imagem dos corvos no filme de Hitchcock “Os Pássaros”, com a Melanie (representada pela atriz Tippi Hedren) em primeiro plano a fugir e a gritar dos pássaros, atrás.
Digamos que, à boa maneira do Hitchcock (não é a primeira vez que o refiro nestas crónicas), se colocam os corvos e outras aves no topo da cadeia alimentar e da cadeira do poder. E pronto – justifica-se uma crónica, à volta dos corvos. E porque há uma fotografia, claro.
Numa ocasião ao executar o projeto “o Corvo”, estou a fotografar no meio da cidade de Bruxelas. Mais precisamente num sábado de inverno, à tarde, na zona do Botanique. A luz está boa, o ar límpido e o frio cortante. “Ando à procura de corvos para um projeto”, explico a um amigo que também ali estava a fotografar para um contrato de calendário. E ali estou eu a olhar para cima, à procura de manchas negras pousadas ou a voar.
Outra característica do projeto é encaixar-se no meu maior projeto “Looooong Shots”, com fotografias impressas com metros de comprimento. Por isso, tinha também que encontrar um enquadramento certo, onde ainda atuaria “o Corvo”. Isto dificulta as coisas, para terminar com uma fotografia que se enquadre no projeto.
Sem grande sucesso, despeço-me do meu amigo e volto para trás. Vou sempre olhando para cima, como se tivesse um torcicolo psicológico a limitar-me as ideias. A caminho encontro um casal de turistas que me pedem para lhes fazer umas fotografias. Chamem-lhe deformação profissional, mas aproveitei para lhes ensinar umas coisitas – “sempre por melhor Fotografia”! Não sabiam que a máquina estava no modo de focagem multi-ponto, nem sequer o que isso é. Não controlavam o que era que a máquina focava, e muitas vezes ficavam descontentes com a máquina. “Ah! Então é por isso que ela foca mal às vezes! Obrigado.”. Por um pouco esqueço-me do corvo e sinto que afinal ainda tinha havido um momento de satisfação, para mim e para outros.
O sol baixa, a luz aquece e a temperatura cai. E eis que vejo uma manchita no topo de um edifício (primeira fotografia nesta crónica), “o Corvo”! E esta sim, resultaria num bom enquadramento. Pego no tripé, mudo de lente e seguem-se vários cliques. Para cada “looooong shot” preciso de umas 10 fotografias. Requer atenção e técnica para fazer as coisas bem. Apesar dos -5ºC, levo o meu tempo e tiro de facto muitas fotografias, com o corvo sempre lá em cima. E vou para casa com um sorriso na cara, em direção do pôr-do-sol.
Chego a casa e à noite edito a “looooong shot” para o projeto (segunda fotografia, com dimensões de 200cm por 40cm, sem ampliação). E depois observo “o Corvo” com cuidado…Não é um corvo. O tal ponto negro não é um corvo! É sim uma câmara ou algo parecido (terceira fotografia)!!!! Não fico nada, mas nada contente. A luz daquele dia e ocasião tinha sido invulgarmente boa.
Não contava em conseguir repetir a ocasião tão cedo. Levanto-me da cadeira e fixo o meu olhar no vazio da televisão.
Relaxo e, passado um bocado, volto ao computador. Desanimado, volto a observar mais atentamente a foto. É uma coisa grande, por isso leva o seu tempo. E descubro outro ponto negro, noutro telhado. O gajo está lá! No final de contas está lá! “o Corvo”, está lá mas noutro sítio! Consigo imaginá-lo a rir-se para mim, na sua cadeira do poder, como se ele o tivesse sempre sabido desde o início.
Nota sobre o texto: segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.










































