Crónicas de João M. Gil
É com os tubos
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- Publicado em 04-01-2013
Com a enorme explosão do uso da imagem, aliada à explosão dos registos, dos acessos e das próprias formas de acesso à imagem, existem vários fenómenos que nos vão afetando como humanos, simples seres com dois olhos, indivíduos mas também membros de uma sociedade, e por isso também consumidores, criativos e comunicadores. O que é certo é que, sem o uso da “imagem” no mais amplo dos sentidos, corre-se o risco de não existir. Comunicar é fundamental. E no fundo, o que fica? O que se transporta ou comunica? O que é, de facto, importante e decorrente de uma imagem?
Pego nesta fotografia, de um retrato que fiz do Guitarrista Clássico profissional de 8 cordas, Steve Gibbs (que me autorizou a escrever esta crónica com esta fotografia). É uma de muitas outras registadas numa campanha de fotografia que me foi encomendada. O que se vê nesta fotografia? Como comunica? Já tenho o meu olhar um pouco viciado sobre esta fotografia que fiz, naturalmente. Por isso vou por passos, para conseguir fazer o caminho de observação cuidada.
Não consigo precisar qual vemos primeiro, se a expressão facial do guitarrista se o corpo da guitarra. Ambos estão a centro, num conjunto que ocupa um terço da área total, contando com os corpos do músico e da guitarra. Talvez os dois apareçam de início ao mesmo tempo, o que é bom. A expressão é de simpatia, alegria, empatia, abertura e comunicação – todos ingredientes fundamentais para um músico profissional. No final de contas, será isso que quererá transmitir ao convidar os seus clientes a comprarem e ouvirem a sua música (para além da sua técnica e conhecimento). Essa expressão é realçada pelas sombras faciais que resultam duma luz difusa lateral-superior um pouco dirigida (luz natural, de uma janela – a fonte de luz primária), e também de algum enchimento com a “soft-box” à esquerda. Esta iluminação criou sombras e relevos ricos na face e também nas mãos, evitando negros profundos nem qualquer luz dura. Também fiz uso dum efeito muito interessante de iluminação natural da parede atrás, como que criando uma vinhetagem natural da parede.
A guitarra de lado, na diagonal, relaxa a ligação com o observador, evitando uma vertical de força ou uma barreira física demasiado presente entre músico e nós. A guitarra “está lá”, mas não à frente do músico. Depois veremos as mãos, uma delas mais próxima, semiaberta como que pedindo algo a agarrar (a nossa atenção?) ou dando algo a nós (boa música?). Esta mão tem visualmente um peso singular, por várias razões: a sua forma, a sua posição ao centro na horizontal e no fundo da fotografia, mas também o tamanho relativo ao resto. Repare-se como tem o tamanho da cara do músico, fruto da grande angular que eu quis usar (contra as regras!).
Transporta-se uma ideia de relaxamento em tudo, e por isso em abertura na comunicação que se pretende: o dedo da mão à direita, numa posição diferente dos restantes 3 outros dedos no braço da guitarra; a diagonal “solta” da guitarra, também de lado; a camisa semiaberta, desarrumada e honesta; o cabelo, meio despenteado e genuíno, com uma textura e relevo bem definidos. Mas há outras coisas mais, muito, muito importantes: o instante capturado, num momento não preparado – logo isso, sem dúvida ajudou na tónica global; as próprias proporções que, embora entendidas e compensadas pelo nosso cérebro, “relaxam” as relações de tamanho com a realidade, quase que dando um pequeno toque de imprevisto e de humor; a inclusão da “soft-box” do lado esquerdo, uma ferramenta de trabalho que se mostra abertamente, num contacto entre a cena e o real normalmente invisível do momento; por último, a inclusão dos tubos na parede. E é aqui onde encontrei a maior justificação para esta história – os tubos!
Esta fotografia foi feita num sótão, na casa do músico em Bruxelas. Neste sótão a luz foi fenomenal, assim como a textura disponível nas paredes. Depois…depois havia uns tubos e um lavatório. Já previa um pós-processamento para arrumar a coisa, apagando tais adereços. Mas o que aconteceu foi o cliente gostar desta fotografia, tal como ela é, crua e simples tal como a realidade se apresentou. Se a “softbox” lá está, assim como o cabelo, camisa, mãos, guitarra, dedo, momento, se tudo está tal como foi, os tubos também para isso contribuem – está lá a transparência e a mostra do músico tal como ele é, tão importante na comunicação da imagem que ele queria. Quando me disse isto, ri-me e disse-lhe: “Ok! Boa. Seja assim e estou preparado para o defender perante os meus colegas fotógrafos! Gosto. Posso fazer uma crónica?” Mostrei-lhe a flexibilidade de aceitação do desejo por parte do cliente e, de facto, pareceu-me uma decisão certa. Ele sorri e diz-me, “Mas podes fazer uma versão sem tubos?”. E aqui tive que lhe dizer “não”, acompanhado de uma justificação de retidão ética e de coerência no trabalho do Fotógrafo: “Se se publica uma versão da fotografia, com a justificação de mostrar as coisas tal como realmente são, ligando-se à existência do músico, não podemos depois vir limpar essa fotografia dos tubos e mostrar outra versão. Seria uma mentira declarada e uma pública deturpação da verdade; da verdade que à partida se queria transmitir, subliminar e fortemente. Ou se publica com tubos ou sem tubos.”, disse-lhe. Imediatamente aceitou, porque sabia bem o que era no fundo importante transmitir com aquela imagem e aquilo de que tanto ele próprio nela gostava. E assim ficou a fotografia, assumidamente e coerentemente. Com os tubos!
Nota sobre o texto: segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.










































