Crónicas de João M. Gil
O milagre da Fotografia
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- Publicado em 17-01-2013
Chego a um dos topos do mundo. Aqueles vértices que atraem as cargas elétricas em relâmpagos, mas também grandes multidões. O clássico é subir-se de comboio, ao Corcovado. É um comboio cheio das mentes impacientemente turísticas, com sede de chegar onde “todos vão”. No topo o que se faz? Admira-se a paisagem. Tiram-se fotos. O que mais poderia ser? Descobri que acontece muito mais, e tudo à volta de um pequeno “milagre”. Um “milagre” que faz sorrir – faz-me sorrir a mim e a muita gente.
É um frenesim loco. Há como que um fenómeno de histeria geral. Esticam os braços a imitar a grande estátua que observa a “cidade maravilhosa”, fecham os olhos, sorriem, abraçam-se, deitam-se, beijam-se, ajoelham-se, tudo se faz para ficar numa fotografia, numa máquina deste mundo, junto ao ícone talvez mais famoso da cidade e um dos mais famosos do mundo. Se fizer as contas, sobem em cada “trem” 360 pessoas/hora; destas talvez umas 70% terão máquina fotográfica, i.e., 252 pessoas; se cada máquina tirar 1 foto/minuto (deverá ser mais, mas digamos que seja esta a média, conservadora), entram no nosso mundo da existência 15120 fotografias por hora, no mínimo. Falando de electrónica, se cada disparo durar 1/60s e corresponder a uma corrente eléctrica de 1.5A (A de “Ampére”, unidade de corrente eléctrica do Sistema Internacional), embora já tenha visto reportados valores mais altos e não considero o uso de flash, falamos do movimento de uma carga total de mais do que 300C (C de “Coulomb”, unidade de carga do Sistema Internacional) só numa hora. Uma coisa astronómica! Um grande relâmpago mexe o mesmo número de electrões que apenas 1h de minúsculas máquinas fotográficas digitais no topo do “Corcovado”.
Voltando à cena, fico de boca aberta com aquele êxtase geral. Parecia que havia um milagre, um evento metafísico a que todos cediam com plena entrega física e espiritual. Fotografo as pessoas, quase me esquecendo de eu próprio fotografar a maravilhosa vista, aos nossos pés. Reparo também que eram pessoas bonitas, eles e elas; sem dúvida dignos de serem fotografados com a alegria que aquele sítio lhes dá; muitos são casais com sorrisos largamente enamorados uns pelos outros e pelo local. Poucos têm SLRs, e alguns destes também fotografam aquele fenómeno de quase histeria. A maioria tem máquinas compactas. Pergunto a uma polícia que também observava as pessoas, se assim era todos os dias, respondendo-me que sim, sorrindo ainda ela própria àquilo que devia já estar habituada a ver diariamente. Sorrio.
E, de repente, o que vejo eu? Um homem sentado, debaixo de uns chapéus-de-sol. Tem um chapéu de palha na cabeça, dando-lhe um estilo e leveza latinos, escondendo-lhe os cabelos brancos. Dá-lhe um ar de aventureiro e rebelde. Tem uns óculos apoiados a meio da cana do nariz, cruza a perna e bebe o que será um café. Está rodeado de 5 impressoras de jato de tinta, montadas num esquema de prateleiras improvisadas. Existem pratos, relógios, postais, eu sei lá mais o quê, com fotografias de pessoas naquele sítio. De muitas pessoas a sorrir. Debaixo do casaco de ganga tem uma T-shirt, da qual se distinguem as letras “tógra”, da palavra “Fotógrafo” parcialmente escondida pelo casaco. Era a cereja em cima do bolo, ou melhor, em cima do Corcovado. Era um exemplo do negócio certo no sítio certo. Sorrio.
Para mim, todo este fenómeno faz parte de um efeito tão simples quanto já impercetível e óbvio para nós, “um milagre da Fotografia” num sítio do mundo onde as cargas eléctricas se mexem não só nas trovoadas mas também nas máquinas fotográficas, provocando sorrisos no final de contas. Onde se vê como a Fotografia move e emociona milhares de gente, em tantos locais especiais como este. Onde se também vê quem trabalha em Fotografia, vestindo a camisola, chegando onde os seus clientes e os sorrisos estão, nesses locais. Fazendo ele próprio com que as pessoas sorriam. Onde o jogo de registar as imagens numa máquina fotográfica é jogado por tantos, ligando-o a tantos sorrisos. “Sorria!”, “Sorri”, “Queijo!”, “Say cheese!”
E todos os dias, isto acontece em milhares de sítios no mundo. Está a acontecer neste mesmo momento que termino. E, agora mesmo, eu próprio também sorrio. Sorrio por me lembrar de ver, sentir e fotografar como aquela gente sorria com uma coisa tão simples que é a Fotografia, e por saber que isso está a acontecer a milhares de pessoas neste preciso momento. Sorrio porque estou a acabar de escrever esta história, onde a palavra ou prefixo “foto” aparece o mesmo número de vezes que a palavra ou prefixo “sorri”, e onde a palavra mais frequente é “pessoas”. Sorrio por causa da Fotografia. “Sorria!”, “Sorri”, “Queijo!”, “Say cheese!”
Nota sobre o texto: segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.










































