Crónicas de João M. Gil
Do dia para a noite vs. Da noite para o dia
- Publicado em segunda, 09 novembro 2009 18:31
Adormecemos todos, no silêncio de um vale isolado. Fora das tendas tudo se ia alterando. O grupo de montanheiros que chegara à montanha com muita conversa e risada, com o roçar dos impermeáveis, o estalar das mochilas, o bater de botas e bastões de caminhada no chão, cedia agora ao silêncio do coração da montanha. Do dia para a noite, tudo mudou.
Na noite anterior, reuníramo-nos todos na cidade de Espinho. A noite tinha sido de ventos fortes, com falhas longas de fornecimento de luz. Parecia que aquelas ruas geometricamente postas abanavam. Perdurava a dúvida se uma prevista janela de bom tempo nos ia acompanhar na viagem. Depois desse intervalo, previa-se uma noite de fortes nevões, na zona para onde íamos fazer actividade de montanha. O plano era viajar cedo, para montar tendas antes do nevão. A ideia de ir com esta previsão não é completamente descabida, porque efectivamente o que se quer é viver a montanha. E, às vezes, as previsões falham completamente. E se uma previsão má falha, só há uma hipótese mais – é haver bom tempo! Desde que no local e na altura se tenha a frescura e cabeça para se avançar para a montanha com segurança, julgamos ser boa estratégia. Muitas vezes resulta, assim como também nos pode forçar a voltar de viagem. Com a nossa determinação, se não desse para subir a montanha, os nossos últimos objectivos seriam cumpridos: estar no meio do monte, no meio da intempérie, abrigados, quentes e protegidos; estar ao nível do chão, pelo menos um dia; sentir a privação para depois usufruir da falta dela; fotografar com calma. Do dia para a noite e da noite para o dia, estar na montanha e na Natureza (sem ser em trabalho!) está provado ser o descanso mais eficaz para corpo e mente.
Na viagem, os carros seguem em caravana. O ar polar, límpido, aguçado e frio, rodeia-nos. As estradas reflectem o sol, forte em luz, fraco em calor. Vêem-se os cumes das montanhas ainda sem neve, frios e nus, e os vales sombrios do Inverno. Tudo vai passando para trás, para seguirmos o plano à nossa frente. Já perto do local, em altitude, as belas bétulas (vidoeiros, ou noivas-da-floresta, soube há semanas) dão-nos as boas-vindas, ao vento. Os ramos avermelhados, partindo do tronco esbelto com a sua pela branca, ainda sustêm as últimas folhas amarelas do Outono. Os bosques de carvalho negral já exibem as suas folhas castanhas, para só deixarem a árvore na Primavera seguinte. Parece que, do dia para noite, foram adormecidos por algo poderoso. Não me admira que, tal como com as faias e as oliveiras, os Celtas tenham venerado estas árvores de forma especial.
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Vão caindo uns farrapos de neve, vindos de nuvens dispersas. A Leste vemos os cumes nevados. Sentimos o nosso coração a saltar de entusiasmo. A Oeste, começa-se a ver uma muralha de nuvens espessas – era a frente que iria trazer os nevões fortes do final da tarde e noite. Para Norte, as árvores mostram-se excepcionalmente belas, no fundo azul celeste e transparente. Não era altura para fotografia, porque tínhamos que chegar ao destino antes do nevão.
Chegados ao local, estacionamos numa aldeia. Todos falam, numa balbúrdia de frases, de sons de fechos de roupa e de material de montanha. Os metais dos crampons, piolets e bastões de caminhada estão gelados. Queremos pôr a mochila às costas e começar a caminhar. De olhos para baixo, verificamos o mapa, o caminho e as horas. São horas de ir. Em 1h apenas iríamos estar no vale onde planeáramos pernoitar. Olhando para cima, verificamos as nuvens. O sol desaparece. Frio.
Caminhamos pelos castanhos do Outono, com as bétulas e carvalhos a guiar-nos ao longo do caminho. Há ramos partidos no chão. Passamos com cuidado por zonas alagadas. Os bastões são-nos muito úteis, especialmente pelo peso que levamos nas costas, poupando-nos as articulações dos joelhos e tornozelos. Escolhemos o local que sabemos ser abrigado. Não temos que nos sujeitar a ventos fortes, durante o nevão. A ideia é ter conforto…na montanha! Montamos as tendas no meio de grandes arbustos, prendendo-as bem. E, do dia para a noite, o nevão chega. Abrigamo-nos. Ouvem-se as vozes das outras tendas, dando a ideia que estão cada vez mais longe, com a queda de neve a abafar tudo.
E volto ao início da história. Parecia que, com o nevão, todos fôramos fumigados por um spray de sono. Todos, nas quatro tendas. Silêncio. Alívio. Descanso. Acordo pouco tempo depois, para ver que já é escuro. “Já?! Noite!?”. Não abro a tenda e olho para o relógio – 16h, apenas! Era do dia para noite! Mas o que se tinha passado? Tínhamos uns 10cm de neve em cima! Todas as tendas tinham como que desaparecido, dando lugar a grandes bossas brancas. O mundo era outro.
A previsão estava certa e eu já fazia planos – podíamos não subir no dia seguinte, mas iriam sair muitas e boas fotografias. Ainda por cima, se íamos adormecer indecentemente cedo, a alvorada seria fácil e antes dos demais, para evitar pegadas naquele manto intocado. Estávamos onde queríamos, da noite para o dia!

































