Crónicas de João M. Gil
A importância de fotografar com o coração
- Publicado em quinta, 10 dezembro 2009 19:40
Já me tinham informado, havia dias, que o fogo tinha sido especialmente arrasador. Tudo tinha acontecido mesmo ali ao lado de onde agora eu estava, no meio da floresta. Uma pequena mas densa barreira de carvalhos e arvoredo, poupados ao desastre e em plena vida, separavam-me ainda de tal visão e permitiam-me adiar ver o local.
Era o primeiro sintoma de ter o meu coração a dirigir os meus actos, no processo de criação destas fotografias. E, na verdade, porque uma fotografia não se esgota no acto da obturação ou da revelação (refira-se o termo “revelação” não só à de película como à de um ficheiro RAW, no digital), e felizmente continua muito para além, o meu coração continua a estar presente na forma de ver e de sentir as fotografias do local.
É claro que não me estou a referir ao ritmado e programado bater da bomba rubra e musculada que vai fazendo chegar o sangue aos mais longínquos capilares, aos mais protegidos neurónios. Julgo não cometer qualquer erro científico se afirmar que o coração não pensa. Ponto final! Não entendo qual é a objectividade científica que ainda permite que se diga “pensar com o coração”, querendo-se referir à emoção com que se tomarão decisões ou se analisará algo. E depois há expressões como “quebrar o coração” ou “sentir o coração apertado”, sem ter nada que ver com saúde cardiovascular, para piorar o cenário de falta de rigor! E “ter o coração nas mãos”?!
Pois bem, aceitemos o uso do termo “coração” como se referindo ao motor vital e que reage rapidamente para bombear o sangue e as hormonas necessárias conforme as emoções geradas no nosso cérebro e sistema nervoso. Se essa resposta orgânica é quase imediata, empiricamente acabamos por afirmar que é tal bomba que gere ou cria tais emoções e que, se não reagirmos com a razão a esses fluxos, o coração vai acelerar e estamos a “pensar com o coração”. Aceite-se essa falta de precisão como não grave, até porque todos sabemos o que quer dizer. Sejamos razoáveis.
E volto à questão do momento de visitar a floresta queimada e de já antes ser gerido pelo coração para evitá-lo. Recordo-me de concluir ter que ir ao local e enfrentá-lo, começando a “pensar com a cabeça”. Pois – o mais atento leitor diria que esta será outra expressão varrida de lógica, bastando ter noção que é só na cabeça que as sinapses se conjugam em pensamentos. E, não querendo piorar a interpretação precisa das coisas, não vou falar no sistema nervoso central e no periférico, constituídos por neurónios para nos levar a pensar e também nos levar a sentir. Ao fim ao cabo, o pensamento e os sentimentos têm um ponto comum no funcionamento do nosso corpo – os neurónios! Porque não dizemos “pensar com os neurónios”, “sentir com os neurónios”, ou até “sentir o neurónio apertado”? E, já agora, “com o neurónio nas mãos”?
E volto ao momento de chegada ao local…Vejo-o negro, sem vida. As pedras parecem ter cozido. O silêncio é sepulcral e invasivo. Ouço apenas os meus passos. E, se não consigo explicar o uso das palavras, tenho a certeza de então ser invadido de sensações que todos aprendemos a dizer serem essas: “coração apertado” ou “pensar com o coração”. O meu corpo reage com variados suspiros, inconscientes mas reais. Adio usar as máquinas, montar o tripé, ou sequer pousar a mochila. Decidira dedicar um tempo à pura reserva e respeito pela privacidade de cada campa naquele cemitério de árvores, ironicamente enterradas onde haviam vivido dezenas ou centenas de anos; ao deambular por entre os troncos que se mantêm como lápides; a lhes dedicar um momento de silêncio, respeito e admiração; a não criar nenhuma barreira mecânica entre o que me rodeava e os meus olhos, na ponte para o emocional. Independentemente de qualquer processo fotográfico, não é isto tudo “ver com o coração”?
E foi então que a mente gradualmente foi tomando importância, não substituindo mas complementando o processo de sentir e de observar. Numa ida anterior ao local, sem qualquer fotografia, um amigo da zona havia-me levado à “árvore” que lhe ficara marcada na sua própria mente e no seu coração – um esqueleto de um castanheiro que vivera centenas de anos. No topo de um pedaço de tronco cheio de pesadas rugas, como que por milagre de vida, ergue-se um rebento jovem, em direcção ao céu, chamando a si a seiva que no respeitoso ser circulou durante séculos; e, ainda, nos extremos de tudo estão as castanhas penduradas, à espera de cair. Mas, atenção, isto estava agora tudo terminado, pela morte negra que viera pelo fogo. As inúmeras gerações ali entroncadas, desde o tronco velho às castanhas que cairiam no chão para novas vidas, haviam sido cristalizadas em carvão numa estátua intemporal. E pensei: “isto tem que ser mostrado”, “isto tem que ser sentido”, “isto tem que ser pensado”, “vim tarde de mais, porque não a tinha visto antes, mas há mais para fazer por ela e pelas que continuam vivas”.
E começando a fotografar, depois de conjugar o coração e a mente naquele processo, tudo de repente começa a fazer sentido. Acabo por relacioná-lo com o que andara a pensar sobre o que é ser fotógrafo, uns dias antes – como já defendera Bresson, fotografar resulta da convergência entre visão, razão e coração; sem o coração eu não teria entrado naquela floresta morta, “sentindo-a” e “vendo-a” aos vários níveis; sem usar a mente, não teria entendido a utilidade de ali estar, de decidir por fotografar para algo; sem uma ou outra, não teria sequer evoluído da emoção para a mente, conjugando-as. E, por fim, faz-me pensar em algo mais – um(a) fotógrafo(a) é, também, feito daquilo que faz com as suas fotografias e de como fotografa “com o coração”.
































