Crónicas de João M. Gil
Sobre oferecer uma fotografia a alguém que fotografaste
- Publicado em domingo, 17 janeiro 2010 12:39
Oferecer uma simples fotografia em papel (por exemplo, 10cm × 15cm) será um hábito em vias de extinção e sem valor? De facto, não são tempos para tal, por muitas razões. Mas se numas ocasiões é demasiado banal e absurdo, noutras é uma peça fundamental no trato respeitoso com desconhecidos que fotografamos. Noutras situações é motivo de desconfiança, até. Quando, pela simples e pura simpatia, durante o processo de interacção, de comunicação e de recolha fotográfica, prometemos a alguém oferecer-lhe uma fotografia, há certos cuidados que ter em mente – para quem se deixa fotografar e mesmo para quem fotografa.
Quando fiz esta fotografia durante uma viagem, impressionou-me a vida da pessoa cujo dia-a-dia é recolher pedras pequeninas à mão, à beira-mar. Todos os dias. Pedra após pedra. Onda após onda. Não é bem aquela coisinha romântica de “Caminhar à beira mar, com as sapatilhas na mão, roupa branca e calça arregaçada, olhando o infinito. Apanhar conchas e pedrinhas, numa manhã de Domingo, e depois ler o jornal com um galão, numa esplanada…”, com uma música de fundo, “Lá, Lará, Lará.”. É uma profissão dura, servindo a recolha e a escolha de calibre pequeno para coisas grandes, na construção. Observar tal rudeza de vida fez-me pensar na pequenez da sua escala relativamente ao esforço que, todos os dias, tal pessoa terá à sua frente, marcando as suas mãos e a sua mente. Por isso, quis que a composição e simplicidade desta fotografia espelhassem justamente esse facto, esse meu sentimento e também aquela vida da pessoa que foi fotografada, ao longe.
Uns momentos depois, encontrámos uma simpática senhora, com a sua filha de uns 3 anitos. Chamava-se Fátima, talvez de uns 20 e poucos anos. A sua cara era muito triste e tal tristeza afectou-nos especialmente. Vivia em condições más. Varria a entrada da sua casa, enquanto a sua filha brincava no chão. Se, noutras vidas de pessoas nestas condições (ou piores, até), tais pessoas conseguem largar um sorriso e mostrar um inexplicável brilho nos seus olhos, conseguindo-os miraculosamente pescar por entre experiências de vida duras, a Fátima não era um caso desses. Para mais, saiu-lhe a frase comum que me custa muito ouvir em algumas viagens: “Filha, não queres ir embora com esses senhores?”…Pois bem, pedi para lhes tirar uma fotografia. Apontei a morada e, passados uns meses mandei-lhe a fotografia. Para minha recalcada tristeza, foi-me devolvida com indicação de “Destinatário desconhecido”. Marcou-me, no meu âmago, e não me desculpo ter se calhar demorado demais a enviar a fotografia à Fátima.
Outra situação de viagem, mas completamente diferente, foi durante uma caminhada de montanha. Fi-lo sozinho, durante um dia, mas com toda a satisfação e com a melhor e mais feliz interacção com os locais que conheci: o Erikson tinha orgulho no seu nome, por causa do futebol Português; ele e os seus amigos e irmã tinham ido apanhar mangas, inhame e outras coisas, que levavam nos braços; mais à frente, o Eleutério insistiu para que comesse umas mangas que lavou à minha frente, com água corrente dos montes. Lembro-me de as olhar e trincar com satisfação nas minhas mãos, cheias de sumo. Fotografei-o a lavar as mangas, na varanda. Apontei o nome e a morada e prometi-lhe enviar uma fotografia. E assim fiz. Não me foi devolvida e, por isso, alegremente imagino o sorriso do Eleutério ao recebê-la.

Mas outras coisas podem acontecer. Noutra ocasião mais recente e totalmente distinta, durante a preparação de um Workshop, dialogava com um responsável local. Descrevia-lhe o que são os Workshops CAUSAS. Este é um trabalho absolutamente necessário, para respeito de todos e numa perspectiva de sustentabilidade – para com os que nos recebem, nos seus territórios e casas, e mesmo para com os que se inscrevem e participam no evento. Mas depois de longa e aberta conversa, em que já tudo estava combinado, com toda e a mais pura das simpatias digo: “E no final, podemos oferecer uma pequena fotografia às pessoas.”, recebendo um ligeiro olhar de desconfiança e de estranheza…Nada dito, mas sentido. Tinha havido, apercebi-me mais tarde, más experiências com outros fotógrafos que não tinham cumprido o respeito pelas pessoas locais, até usurpando a sua imagem sem autorização, com publicação indevida das suas fotografias. Para mais, se nos dias de hoje corre o infeliz boato que “ninguém oferece nada”, ou “se se oferece é…manhoso”, acabei por arriscar-me ser vítima de tais experiências de outros e, surpreendentemente, também vítima da minha pura simpatia em oferecer uma fotografia em papel.
Há duas semanas, antes do Natal, faço 50km de propósito para oferecer 3 fotografias a 3 pessoas. A Sra. Maria e o Sr. João, dos seus 80 anos, não se conhecem, mas haviam ambos recebido um Workshop CAUSAS de braços abertos, confiando em mim e nos participantes. Eu não prometera dar-lhes qualquer fotografia (embora mais tarde contasse sempre fazê-lo). Mas à Sra. Maria uma participante havia-o prometido e, por isso, deveria eu garantir que tal era cumprido. E assim fiz e quis fazê-lo sem demorar, sabendo que não me iria perdoar caso já não pudessem estar presentes para as receber, nesta vida. O Sr. João estranhou um pouco a oferta, senti-o... Mas a Sra. Maria lembrava-se de tudo e sabia que alguém lhe tinha prometido uma fotografia. Em conversa ofereceu-nos um copo e disse que voltássemos.
Afinal, oferecer uma fotografia em papel não está em vias de extinção, tem muita importância e pode não ser nada simples. O que será feito da Fátima?...
































