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Uma fotografia multi-dimensional – Simplicidade e Genuinidade

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 Num todo, orgânico e unificador

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A universalidade da diversidade, incluindo na fotografia

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Sobre oferecer uma fotografia a alguém que fotografaste

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Água mole em pedra dura...

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A idade e o brilho das coisas, grandes e pequenas

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24h para São Vicente, com Hitchcock e Michael Jackson

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Evoluções da espécie e a crise

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 As verdades do Budismo e a procura da fotografia última

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João M. Gil

Interessou-se pela fotografia desde os seus 10 anos. Foi fotógrafo amador até 2007. Depois de 10 anos noutra carreira, escolheu ser fotógrafo profissional, de Paisagens, Gentes e Culturas.

É praticante do montanhismo e amante da Natureza, no usufruto e na forma de viver.

www.alma-lux-photographia.com

Crónicas de João M. Gil

A universalidade da diversidade, incluindo na fotografia

Foto de João M. GilNas telecomunicações móveis, numa combinação extraordinária de variados sistemas e protocolos a funcionar com um mesmo fim, há um princípio ou técnica fundamental que desde os primórdios da sua implementação esteve sempre presente – chama-se “diversidade”. Na altura, os telemóveis eram “tijolos” e só um mais inspirado argumentista de ficção científica incorporaria num desses “tijolos” uma máquina fotográfica, ainda por cima “digital”!

Mas de facto, para ser mais preciso, já havia muito que a diversidade era usada em sistemas de comunicação satélite, para garantir que a comunicação se mantenha como exigido, quando uma ligação não cumpre a qualidade suficiente, entre várias que vão operando em conjunto, cumprindo o funcionamento em simultâneo e em complementaridade nas comunicações planetárias. Um outro bom exemplo de uso de diversidade é o de um sistema como o GPS, de que ouvimos falar todos os dias, e em que vários satélites contribuem de forma complementar para um mesmo fim – localização.

Há, por isso, outros princípios na base da implementação desta tal “diversidade” – “partilha de objectivos”, com todos os sistemas paralelos a funcionar com um mesmo objectivo final, “entendimento”, “simultaneidade de operação”, mas também a “diferença”. Saliento que uma coisa é “redundância”, ou “repetição”, ou “substituição”, como é o caso da segunda máquina de reserva que levamos para a execução de um trabalho, mas que apenas entrará em funcionamento no caso da primeira avariar; outra coisa é “complementaridade”, com “entendimento”, com “simultaneidade”, mas com a tal “diferença” entre meios, como é o caso de um segundo corpo que vai entrando em funcionamento dedicado com outra lente, para evitar andar a trocar de lentes.

Passo a mais exemplos na fotografia. Na decisão sobre usar digital ou película, que para muitos fotógrafos é religiosa e que nunca discuto mas sempre respeito, eu tenho a minha pessoal opinião em como nalguns casos o digital é a opção melhor, noutros casos é a película. Para o meu objectivo final, que inclui impressões em grandes tamanhos, vejo ambos os meios “diferentes” como “complementares” no meu trabalho; um não se substitui ao outro e até posso recorrer a ambos em simultâneo. Ou noutra situação, quando decido que material fotográfico ponho na mochila, levo lentes variadas que me darão resultados variados e distintos. Sei que, se por alguma razão não uso uma lente, terei outra diferente que me vai fazer chegar a casa contente com o trabalho. É nesta “complementaridade”, com “entendimento”, com “simultaneidade”, mas com “diferença” entre meios, que consiste o tal conceito de “diversidade”.

Outra questão por detrás disto é o uso e partilha de recursos e relações custo-benefício. Levarei mais peso e menos espaço na mochila, ou até levarei mais tempo para tomar decisões no esforço e no uso das coisas – o recurso comum são as minhas costas, o esforço e o tempo. No caso das comunicações são as antenas, é o ar, o tempo, entre outros recursos mais complexos. No caso de uma floresta ou dos vegetais na horta, é o espaço, a terra e a água que variadas plantas vão ocupar.

Foto de João M. Gil

Quando tirei esta fotografia, para um Workshop de Fotografia Criativa em que me inscrevi há uns anos, assolava-me um sentimento fundamental que fazia especialmente parte daqueles dias da minha vida (se me é permitido um relato muito pessoal). Eram os dias de definir uma mudança profissional, de assimilar dentro de mim coisas como “diferença”, “mudança”, “evolução”. Era a altura de, numa mesma vida (um recurso!) e para o melhor dessa mesma vida (um objectivo!), fazer jogar a diferença de rumos e de experiências passadas para complementar rumos e experiências futuras. Diversidade!

Mas o mais engraçado é que todos nós, concordemos ou não nas coisas onde cada um/uma valoriza e procura a diversidade, sabemos que a diversidade é fundamental nas nossas vidas. Uns é no simples guarda roupa que têm, com mais ou menos malas ou cachecóis para diversificadas ocasiões; outros é na comida, diversificando o tipo de alimentos que se ingere, para uma melhor e mais completa dieta; outros é nas lentes, nos filtros, nas máquinas fotográficas; ou nas florestas de que vão cuidando e nas hortas que vão plantando. E em coisas mais globais, falamos da diversidade de etnias, de culturas, de religiões, ou de opiniões.

Por isso, estou totalmente convencido que a “diversidade” é um valor importantíssimo na base das nossas vidas, mas também sei que muitas vezes nos vai passando ao lado ou a ela não podemos recorrer. Ou, como ainda é o caso da nossa sociedade lusa, às vezes até é repelida ou não entendida, em favor da “rotina”, da “repetição”, do “inevitável”, da “redundância”, do “não fazer diferente”, ou até do não ser “criativo” (com inúmeras implicações na nossa sociedade, na educação e nas nossas profissões). Só como exemplos, muito concretos: quantas vezes me indagam se fotografo casamentos, e até porque não o faço (para muito público fora deste meio, ser fotógrafo implica apenas tal rumo, se não for ser fotojornalista, ou fotografar para revistas)? Até as Finanças pensam que assim seria, sem à partida entender que há outras formas de negócio na fotografia. Talvez por isso, na altura em que fiz esta fotografia, muitos me perguntavam se a mudança profissional era por “doença”, por “fortuna”, por “mulher”, por “desgosto”. Onde está o “intencional”, o “diferente” ou o “diversificado” na mente de muitos?

E, lá no fundo, a maior prova de que a diversidade nos trespassa a todos e a tudo, e até nos salva, vai parar à Natureza! Não precisamos de ser Darwin para o vermos. Veja-se como a Natureza, toda ela (aos mais distraídos, lembro que “Nós”, o “Homem”, faz parte da Natureza), se encarregou de evoluir através da tal “diversidade”, com ela e para ela. Sem essa “diversidade” não haveria Natureza, e muito menos haveria Homem. Falando no futuro, sem “diversidade” não haverá nada, nem Natureza nem Homem. A “diversidade” é uma fórmula para a existência e para a sustentabilidade.
E se, para além de nos cingirmos a uma quase-moda no uso do termo “Bio-diversidade” e até por ser o “Ano Internacional da Bio-Diversidade” (2011 já não é!), nos questionássemos se realmente acreditamos ou praticamos o tal conceito de “diversidade” nas nossas próprias vidas, nos nossos comportamentos, nas nossas decisões, nas nossas instituições, na gestão do poder e do esforço, no planeamento territorial, na consideração das nossas variadas culturas e gentes? Será que o nosso país a isso convida, realmente? E qual o preço de não o fazer?

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