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O milagre da Fotografia

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O ar (fotográfico) é de todos!

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Encontros e arrumações

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Serendipidade e um corvo

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Um

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Guardar as fotografias certas para um futuro incerto

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And the show must go on!

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Uma fotografia multi-dimensional – Simplicidade e Genuinidade

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 Num todo, orgânico e unificador

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A universalidade da diversidade, incluindo na fotografia

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Sobre oferecer uma fotografia a alguém que fotografaste

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Do dia para a noite vs. Da noite para o dia

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Um dia a menos ou mais, por algo que nos ultrapassa

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Água mole em pedra dura...

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A idade e o brilho das coisas, grandes e pequenas

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24h para São Vicente, com Hitchcock e Michael Jackson

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Evoluções da espécie e a crise

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 As verdades do Budismo e a procura da fotografia última

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João M. Gil

Interessou-se pela fotografia desde os seus 10 anos. Foi fotógrafo amador até 2007. Depois de 10 anos noutra carreira, escolheu ser fotógrafo profissional, de Paisagens, Gentes e Culturas.

É praticante do montanhismo e amante da Natureza, no usufruto e na forma de viver.

www.alma-lux-photographia.com

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Crónicas de João M. Gil

Num todo, orgânico e unificador

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O Sol brilha timidamente por entre as nuvens, com alguns tons rosa do final da tarde. Os raios aproximam-se da horizontal. Ouço as minhas pegadas na neve granulosa. O ar é límpido, frio e aberto. A serra deixa-se ver grande e branca, em ténues curvas que os flocos de neve e o vento foram delineando ou esculpindo, por entre as manchas sólidas dos negros do granito.

Partilho a jornada com um amigo, por uma zona completamente desconhecida para ambos. O tempo está suficientemente aberto, com boa visibilidade. Levamos mapa, bússola e temos bem noção de onde estamos. Vamos desfrutando do espaço, da calma e da vastidão. A ideia foi mesmo “estar”, sem ter obrigações de parar ou de andar por algum local determinado; fotografar sem ter que procurar nada, sem pressa ou sem qualquer preocupação de aproveitar qualquer cena ou ocasião específica. O Sol, a luz, o vento, as pegadas e o que a paisagem vai revelando são os factores que vão determinando o rumo e as acções. É um momento de total liberdade.

Agora, à frente do teclado, escrevo isto uns dias depois de duas pessoas me dizerem sentir uma tremenda claustrofobia na montanha, para meu espanto e até alguma tristeza. Ao saber de tal, pensei que a razão para tal claustrofobia ou tais medos seria a falta de conhecimento sobre o meio de montanha. Faz-me também lembrar outro cenário onde estive a fazer uma apresentação há uns dias, sobre Arte e a minha fotografia. Nessa apresentação falei em “aprender”, tão importante naquele contexto e em tudo na vida. Mas também brinquei com a constituição da palavra, fazendo uma ponte entre conhecimento e liberdade. Mesmo que, etimologicamente se saiba que “aprender” vem do latim “apprehendere”, que significa segurar, prender, agarrar, assimilar, compreender, fui buscar o facto do prefixo “a” muitas vezes significar negação, “vazio de”, “ausência de”. Juntando-se a “prender”, será directo pensar que “aprender” também pode ser entendido como “ausência de prisão”, i.e., “libertar”. De facto, “Aprender liberta” soa-me bem melhor do que a frase que estava na entrada do campo de concentração de Auschwitz, “O trabalho liberta”. Por isso, conhecer a montanha libertará dos tais medos e claustrofobia, aprendendo.

Mas, volto ao momento na serra, quando fiz esta fotografia. À minha volta havia geometrias interessantes, texturas variadas, linhas suaves e também cores impressionantes dos líquenes em grandes rochas de granito erodidas pelos glaciares do passado. É uma escala impressionante, de negros e brancos à distância; há os amarelados, os castanhos e vermelhos de outras rochas mais perto; há o ciano do céu por entre as nuvens, com os laivos de magenta. E é olhando para o chão, junto aos pés, que tudo parece mais rico, pelas formas que aparecem: os líquenes, de um verde quase fluorescente, fazem desenhos curiosos; nos locais abrigados, estalactites de gelo acumulam dias de frio, em camadas lenticulares; nas zonas de arvoredo e prado, há áreas em que a neve contorna e quase cobre as pequenas lagoas de altitude, mostrando vida nesses pequenos mundos interiores. As formas que as coisas de água adquirem, do gelo ou que a neve faz à volta das poças, ainda por cima salientadas pela luz morna de final de tarde, são tão orgânicas como as dos líquenes. É como se os flocos de neve tivessem acordado um protocolo vivo de aterragem suave à volta das poças. Ou como se o gelo fosse estacionando nos locais certos, gota após gota congelada, camada após camada, numa organização programada.

E enquanto isto tudo se vai passando, do qual eu era apenas um mero espectador ou inspirado interprete, sentamo-nos nas rochas, virados para o Sol, à volta do gelo, da neve e dos líquenes. Fazemos uma pausa.

Penso nela. “Onde estaria? Seria bom partilharmos este momento”, discorro. Recebo um sms: “Oi! Estou na praia, c/ a malta n1 esplanada, d frente p/ o Sol. Está belíssimo.” – naquele mesmo momento organizara-se um mesmo e único processo de duas pessoas à distância se virarem para o mesmo Sol, aproveitando a sua luz e calor, entre montanha e praia. E, ainda para mais, essas duas pessoas estavam a pensar uma na outra e também estavam com amigos comuns. E tudo se unia numa magia de simultaneidade e organização. Tenho a certeza que na praia estaria água que um dia teria estado em gelo e em neve naquelas montanhas; agora batia de forma sequencial nas algas das rochas, levando grãos de areia para lugares e posições definidas; sabia que haveria ténues curvas que os grãos e as correntes vão delineando ou esculpindo, por entre as rochas da costa; à volta de lagoas ou poças, tal como as poças que agora via na montanha, também os grãos de areia andariam a rodopiar e a assentar, na praia.

Naquele momento, o todo deste mesmo mundo orgânico revelava-se-me unificador e unificado. E tal como na montanha onde estava, na praia o ciano do céu combinar-se-ia com os magentas e os amarelos do final da tarde, e com o negro das rochas ou de um contraluz de alguém a mandar-me um sms.

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