Crónicas de João M. Gil
And the show must go on!
- Publicado em terça, 29 junho 2010 19:07
Na máquina fotográfica há um “show” que é apresentado depois do clique, durante a obturação. Mas é um espectáculo num palco que é vedado ao nosso olhar. O “show” acontece dentro da máquina, de facto, embora não presenciemos. Nesses instantes deixamos de saber o que o sensor está a registar, ou o que a película está a queimar. O que é apresentado nesse palco, feito pelo conjunto formado pela realidade à frente da máquina, pela lente, o diafragma, os componentes electrónicos de um sensor ou a cortina se for uma máquina de película, e toda a mecânica e electrónica da coisa, só revela o seu resultado mais tarde.
Deixando a questão da realidade à frente da máquina para daqui a umas linhas, lembro que a lente serve para adaptar a leitura óptica da tal realidade a uma imagem planar, numa zona que se pretende ser iluminada uniformemente no plano de registo (seja película ou um sensor electrónico). O diafragma serve para limitar a quantidade de luz que vai atravessar a lente e chegar à película, tal como a íris dos nossos olhos o faz, durante a exposição luminosa. A sua relação com a lente, para além de limitar a quantidade de luz que a atravessa, resulta num efeito óptico que é o da definição de um intervalo de distância à lente entre o qual os objectos ficam focados – “profundidade de campo”. Mas, se o diafragma existe nas máquinas de película e nas digitais, o mesmo já não se passa com a cortina, que tem a função de definir o tempo em que os raios ópticos são permitidos fazer serem chegados à película – “tempo de exposição” ou “tempo de obturação”. Na realidade, embora nas reflex digitais tal componente não exista, com ou sem cortina o tal “show” acontece nas máquinas fotográficas num intervalo de tempo finito, durante o qual não sabemos o que está a ficar registado.
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Por isso e logo à partida, entre a realidade que acontece à frente de máquina e aquilo que o tal “show” apresenta dentro dela, perdemos um pouco o controlo e esperamos que a coisa fique como se imagina. No mínimo, há uns instantes de incógnita enquanto a luz é capturada, e lhe é vedada a passagem pelo prisma da reflex até ao óculo. E quanto maior o tempo de obturação, mais ignorância e, por conseguinte, maior o potencial de surpresa – vejamo-lo pela positiva.
Foi o que me aconteceu nesta fotografia, em que tal potencial foi concretizado em surpresa efectiva. Há um brilho inesperado, resultando de uma incidência e difracção dos raios solares rasantes numa crista de pequena onda, à esquerda do meio da fotografia. Pela longa exposição, enquanto a cortina do tal espectáculo se levanta e eu deixo de ver, houve essa felicidade que o tal “show” me preparou, conjugando o local certo com o momento certo, a física óptica, as maravilhosas realidades que é o elemento água e a luz gloriosa do final de tarde. E isto tudo porque eu decidira fazer uma obturação longa, nesses momentos de coincidência; antes disso tinha montado o tripé, tinha escolhido o local, a composição; tinha-me deslocado ao local, antes de mais. Um conjunto todo de decisões tinham culminado na chance de um pequeno “show” que a máquina me revelara, mais tarde.
E repare-se bem no rasto luminoso da crista – a onda não está em chegada, mas sim em partida. Registada em décimos de segundo, o seu rasto luminoso queimou irremediavelmente por onde passou, no tal palco do tal espectáculo. Tal coisa também os nossos olhos não vêem porque, felizmente, uma retina de um nosso olho normal não retém assim tanto a memória visual, como uma película ou um sensor electrónico o fazem. Esta é também um pouco da beleza das longas exposições, fazendo um registo óptico muito distinto da realidade que vemos com os nossos olhos, à frente da lente.
Por isso, aproximo-me da grande discussão sobre a realidade à minha frente e a realidade que acaba registada por uma máquina fotográfica, concretizável numa fotografia. Não precisamos de ter a iluminação filosófica de uma Susan Sontag, ou de cair no redutor lugar-comum de mencionar um dos grandes fabricantes de software do mundo, para nos apercebermos que a distância entre elas pode ser muito grande e é inevitável. A “realidade à minha frente” é por si uma interpretação dos meus olhos e do meu cérebro, antes de qualquer processo como é o da execução fotográfica. E se os meus olhos e a minha percepção funcionam à sua maneira e foram treinados para entender o que é a “realidade vista através duma lente”, não se diminuiu tal distância, mas sim aumentou-se a capacidade de a interpretar. Esta fotografia é disto só um simples exemplo.
Entre estas realidades, da nuvem de umas incógnitas e outras certezas, factores, decisões, visões, e até sentimentos e intuições, conjugados num processo criativo único que só começa na máquina e nos nossos olhos, surge a “fotografia”. Esvaziada de qualquer um destes, a Fotografia não vai tão longe e não é tão aproveitada por quem a faz e, até, por quem a vê. A possibilidade de lhe permitir gerir expectativas e de gerar surpresa, só lhe dá força. Sem isto não há qualquer processo criativo, até. É como a Informação em Comunicações – se quem recebe já sabe o que vai receber, então não se está a transmitir qualquer Informação. Na Fotografia – se se anula a Expectativa e a Surpresa, não se colabora com qualquer Criatividade.
Como dizia o Freddy: “And the show must go on!”

































