Crónicas de João M. Gil
As âncoras, na construção de algo melhor através da fotografia
- Publicado em segunda, 09 agosto 2010 16:18
Ao verem esta fotografia, uns verão uma expressão de violência, de força, de sofrimento; outros lembrar-se-ão de testosterona, de virilidade; outros de cultura, de festa, de costumes; outros verão simetria; outros o pós-processamento (propositado e assumido, neste caso); de certo que haverá quem se lembre do Touro de Wall Street, das Bolsas, e da crise! Objectivamente, é um testemunho de uma chega de bois, tradicional do norte de Portugal. Fico contente que seja interpretada de todas aquelas maneiras, e de outras mais de que não me esteja a lembrar agora.
Já escrevi sobre diversidade, há uns tempos atrás, e por isso entenderão não querer afunilar a leitura de uma fotografia para uma única interpretação. Pelo contrário. Na verdade, para mim, na posição privilegiada de autor da fotografia, os sentimentos mais fortes são os de respeito, da construção de algo melhor e da sustentabilidade e cumprimento no meu trabalho. E depois de escrever esta história, a continuar um pouco mais a “História desta fotografia”, junto-lhe um sentimento de humor.
Para os mais preocupados com a defesa dos animais, faço notar que as chegas de bois não costumam implicar sangue, feridas ou ossos partidos, nos animais ou nas pessoas. Não é nada que se compare com as touradas, atenção. Os animais, de facto, seguem o seu mais básico instinto, na luta pelas fêmeas e pelo território. Na verdade, acredito que eles mesmo beneficiam de tal encontro, entre machos. Não será um início de uma relação sentimental que contribua para anos de amor e felicidade entre si. No momento em que entram no mesmo recinto, mesmo sem vacas por que disputar, as suas cabeças e cornos são como que atraídos, levados ao choque por uma força que lhes vem do ADN (o vernáculo coloquial popular que aqui seria usado faz referência ao vegetal vermelho que comummente vemos nas saladas mistas, mas neste papel de escritor responsável das crónicas, não o vou aplicar). São, não tenho dúvida, momentos de uma relação tempestuosa e curta, resultando na tonificação muscular e, até, numa redobrada felicidade no posterior reencontro livre com as fêmeas com que costumam estar. Note-se que estes machos não convivem com outros machos competidores, estando “programados” para sentirem a solidão feliz na fecundação das fêmeas, tal como o fazem os búfalos em ambiente selvagem. E se os humanos fazem indústria da extracção de esteróides anabolizantes dos tais “vegetais vermelhos” dos bois, para fazer explodir a massa muscular humana, vejo a vida destes dois bois fotografados num panorama e contexto de muito maior felicidade!
Pois bem, para mim, foi um momento de felicidade porque me senti estar entre amigos, na audiência desta festa, pais, mães, filhos, netos e avós. Alguns estarão no pano de fundo, nesta fotografia. Outros estavam ao meu lado. Convidaram-me para esta festa, depois de vários meses a entrevistar e fotografar as gentes destas regiões, a explicar-lhes o meu trabalho, a devolver-lhes a confiança que depositam em mim e a ver que respeitam a minha leitura própria, objectiva e informada das suas vidas. Encontro uns e outros, que conhecera antes noutros cantos mais ermos das montanhas onde então fora custoso chegar a pé. Agora pagam-me uma e outra cerveja, sempre mantendo uma distância e consciência de um um visitante observador e crítico. Atenção que, no panorama do entendimento evoluído do uso da palavra “crítico”, deve-se entendê-la tanto para o lado “positivo” como “negativo”, e sempre “construtivo” – não nos fiquemos pela interpretação redutora mais comum neste meu país, pela “negativa” e pela “destrutiva”. Na verdade, no meu trabalho e sem prejuízo da sua objectividade, naqueles meses criaram-se laços engraçados, depois de tantas visitas à montanha portuguesa que tanto aprecio e quero ajudar a proteger, nunca descurando a minha capacidade e leitura crítica das coisas.
E, no final de contas, seguindo o lema “amigo não empata amigo”, tal relação entre “fotógrafo” e “objecto fotografado” fica ancorada numa força que me alimenta. Sustenta-me e serve de grande motor na minha fotografia, nas minhas viagens, na maneira de estar com o “Outro” ou com os outros seres vivos, e na minha maneira de ser – a força do respeito entre as partes, sejam elas quais forem. E, novamente voltando à “crítica” e “construção”, só assim me sinto capaz de ajudar a construir algo de melhor e sustentável. É por isto que esta fotografia, para mim, é também sinónimo de cumprimento do meu trabalho de fotógrafo de “Paisagens, Gentes e Culturas”. E se, como já o afirmei noutras ocasiões, ser fotógrafo é também aquilo que fazes com a tua fotografia, em consciência (ou não), esta força e esta fotografia de que sou autor fazem parte de mim.
































