Diogo Carvalho é o segundo fotógrafo a dar a cara na secção Os Fotógrafos da Fotodigital. É o segundo sinal da variedade de opiniões que pode passar por aqui e que a adesão dos leitores já sugeriu ser uma forma válida de mostrar fotógrafos longe das colecções de milhares de fotos, mas numa escolha que exige disciplina do autor.
A fotografia de Diogo Carvalho está intimamente ligada à sua paixão pela Ecologia e pela Natureza, razões q.b. para pegar numa câmara e usá-la como "arma". É isso que faz no seu Naturimago e noutros espaços a que o seu nome surge associado, e a que pode chegar a partir de ali. A relação com a Fotodigital passa pela FotoNatureza, espaço presente na edição online e que na edição em papel foi suplemento de ensaio. A Internet veio permitir um contacto que de outra forma seria, não impossível mas mais difícil. É através dela que agora se dá a conhecer a mais gente quem é o autor das fotos e textos que encontra no blog referido. Boa viagem.
1 – Onde vive?
Apesar de ter nascido e vivido os meus primeiros 18 anos de vida em Penafiel, na freguesia de Duas Igrejas, nunca me identifiquei verdadeiramente com aquela região, talvez pelo facto de ter passado parte da minha infância e adolescência a viajar para locais com os quais melhor me identificava e outra metade a sonhar com os biomas retratados nos documentários de vida selvagem. Efectivamente é uma região com pouco valor cénico e natural, mas que me ajudou a perceber que é possível encontrar beleza mesmo em ecossistemas “menos pristinos”.
Aos 19 ingressei na universidade em Vila Real no curso de Ecologia Aplicada, onde me apaixonaria irremediavelmente pela fotografia de natureza e pelo nordeste transmontano, onde resido e trabalho actualmente.
2 – Há quanto tempo faz fotografia?
Foi mais tarde do que gostaria, não consigo precisar, mas existe de facto uma correlação com a altura em que comecei a observar aves, que terá sido entre os 19 e os 20 anos. Desde que me lembro que sinto uma insaciável curiosidade e vontade de contacto com o mundo natural. A fotografia de natureza, esteve sempre latente, muito antes de ter empunhado a minha primeira câmara, o fascínio com as publicações de vida selvagem esteticamente mais trabalhadas terá surtido o seu efeito. Começou como começa com tantos outros fotógrafos, inicialmente para efectuar registos do que observava no campo, mas rapidamente a fasquia subiu e comecei a tornar-me mais exigente com o tipo de fotografia que fazia e consumia.
3 - Como descreveria o seu estilo?
Apesar de possuir uma particular predilecção pela avifauna, pretendo não obstante evitar a todo custo restringir o meu trabalhos a um par de temas.
Se tivesse mesmo que me definir enquanto fotografo de natureza, diria que sou obstinado, observador atento capaz de discernir beleza onde ela aparentemente não existe e adepto de experimentar todo o tipo de abordagens que o assunto e a minha imaginação permitirem.
Na minha opinião um fotografo percorre vários estilos ao longo do percurso, neste momento julgo estar precisamente numa fase de transição entre duas formas distintas, mas complementares de linguagem fotográfica. O estilo que me antecede é mais imediatista, “lineano” no sentido em que retrato quase exclusivamente a fauna e flora isolados, o que me precede e almejo, é mais holístico sem comprometer a intimidade com os temas abordados, onde pretendo integrar com a maior frequência possível os organismos nos ecossistemas a que pertencem.
4 - Que fotógrafos sente que influenciam o seu trabalho? Por que razão?
A nível internacional e porque são referências incontornáveis, tenho que enunciar Andy Rouse, Jim Brandenburg, Staffan Widstrand, Frans Lanting, cujas imagens não necessitam de justificação. Destaco ainda o Solvin Zankl, que não é exemplo de partilha de conhecimentos para ninguém, mas possui um trabalho com fisheyes e grandes angulares de que gosto particularmente. A nível Ibérico as minhas maiores influências são o João Cosme pela assinatura irreverente, o Luís Quinta, um dos poucos fotógrafos de natureza polivalente, bem sucedido que tenho conhecimento e o José B. Ruiz pelo domínio das longas exposições.
5 – Qual é o seu fotógrafo vivo favorito?
As minhas influências são todas muito contemporâneas, julgo que dos que referi anteriormente estão todos vivos...! Se a pergunta fosse ao contrario vinha-me à mente Ansel Adams.
Não tirando mérito a todos os outros fotógrafos a nível mundial, mas porque acho que em Portugal é necessária uma dose extra de esforço e criatividade, logo a ética de trabalho e forma de estar na fotografia de natureza elegem o João Cosme como o meu fotógrafo favorito. Não só, porque tenho aprendido muito com o registo artístico dele, mas também porque é uma pessoa sem pretensiosismos e amigável.
6 - Que tipo de câmaras usa?
Inicialmente comecei com uma compacta, uma Panasonic FZ5, mas rapidamente percebi que um sistema SLR era inevitável. Como nunca tive possibilidades de adquirir o melhor equipamento possível, decidi começar com uma Canon 350D com a 18-55 f/4-5.6, uma Sigma 10-20 f/4-5.6 e a Sigma 100-300 f/4, entretanto os acessórios foram aumentando mas o equipamento base, ainda continua o mesmo, excluindo a 18-55 que pelo fraco desempenho acabei por vender.
7 – Acessório favorito além da câmara?
O tripé! Não passo sem ele, a minha namorada e amigos estão sempre a queixar-se do peso e espaço que ele ocupa... Na mochila anda sempre equipamento camuflado, impermeáveis, disparador remoto por rádio frequência, espias, braçadeiras de plástico e fita adesiva.
8 – Se só puder transportar uma objectiva qual será a escolha? Por que razão?
É uma pergunta difícil, com que me deparo muitas vezes, razão pela qual acabo sempre por levar tudo em detrimento do meu conforto. Se tivesse mesmo que escolher, acho que optaria por uma focal fixa, parece um contrasenso eu sei, mas como não existe nenhuma zoom que sozinha me satisfaça plenamente, acho que a Sigma 24 f/1.8 seria a objectiva que melhor se adaptaria às minhas necessidades. Montada numa fullframe, permite uma grande angular com capacidades “semi-macro” 1:2, e com o amplo diafragma a capacidade de obter baixas profundidades de campo e utilização em condições de baixa luminosidade. Se a esta dupla adicionar um tripé e um disparador remoto, até bichos pouco conspícuos dá para fotografar.
9 – Se pudesse sair para fotografar com outro fotógrafo quem escolheria?
O Andy Rouse, por ser um verdadeiro animal cosmopolita da fotografia de natureza, apesar de alguns o apontarem como detentor de um estilo cada vez mais comercial, acho-o um excelente fotógrafo com quem se deve aprender imenso.
10 – E que local escolheria para fotografar?
Sou fascinado pelos ecossistemas de média e alta montanha, pelo que qualquer tundra, taiga ou floresta boreal me enchia as medidas! Também ouço dizer que a Roménia (com a maior população de Urso Pardo na Europa e importantes rotas de migração de avifauna) é particularmente prolífica em matéria-prima para a fotografia de natureza em qualquer uma das suas vertentes. Posso escolher um segundo destino? E as Galápagos, terceiro? Ah as Hébridas...
11 - Que conselhos tem para fotógrafos que estão a começar?
1.1. Primeiro apaixonem-se pela natureza, de seguida estudem-na diligentemente;
2.2. Sejam antes de mais, bons observadores de natureza, conheçam a ecologia das espécies e os habitats.
3.3. Não vale a pena ficar-se obcecado com o equipamento, mas sejam ambiciosos e comprem o melhor que puderem, poupa-se tempo e dinheiro;
4.4. A fotografia de natureza faz-se no campo. Passem 85% no campo, 15% em frente ao computador...
5.5. Sejam ambiciosos, tenham um projecto, contem uma história. Andar a fotografar só para colocar as fotos no blog e no flickr não chega, eu sei por experiência...
6.6. Conheçam o que os mestres fazem, consumam todos os tipos de arte, leiam ciência, depois mastiguem tudo e façam fotografia que diga algo diferente sobre a vossa visão.
7.7. Não recebam conselhos meus...
12 – O seu projecto seguinte?
Para ter um projecto seguinte, tenho primeiro que acabar o actual... Basicamente neste momento pretendo estabelecer uma posição, uma identidade, um espaço próprio na fotografia de natureza. Tenho algumas ideias que gostava de implementar no futuro, mas para isso tenho de efectuar algumas mudanças radicais na maneira como vivo a fotografia de natureza, a começar na quantidade e qualidade de tempo que passo no campo e a acabar na disponibilidade que (não) tenho para a promoção do meu trabalho.
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