Profissional
PLUS: a maior cooperativa de fotógrafos
- Publicado em Quinta, 04 Agosto 2011 15:19
Na mesma altura em que na Grã-Bretanha se voltam a discutir os direitos dos fotógrafos sobre as suas fotos, quando a Stock Artists Alliance dá os últimos estertores de agonia, a ideia da PLUS como defesa dos autores ganha consistência.
Com a introdução da fotografia digital e a web, os autores perderam muito do controlo sobre as suas fotografias. Num universo onde é muito o “tudo o que cá está é nosso” que vale, a fotografia tornou-se em algo que o fotógrafo tem dificuldade em chamar de seu, dividido entre a possibilidade de maior visibilidade e os riscos de as suas fotos aparecerem nos locais mais inesperados, de outros espaços na web, porventura até assinadas por outrém, até impressas em publicações.
A fotografia digital deu também a todos uma maior acessibilidade ao controlo de equipamentos e tratamento de fotos, criando ns pessoas a ideia de que a produção de trabalho profissional era acessível a todos. É verdade que muitos amadores apresentam melhor trabalho do que fotógrafos considerados profissionais, mas a destrinça que se deve realmente fazer é, não por aí, mas sim se o fotógrafo realmente vive da fotografia, para ser profissional.
Ora o que sucede é que muitos amadores concorrem com os profissionais não ao nível da qualidade do trabalho, mas no preço. E num mercado em retracção, onde se criou a ideia de que a fotografia é uma “commodity” que qualquer um pode fazer com uma reflex digital de 400 euros, um amador que, por não ter custos a reflectir na actividade, não pagar muitas vezes impostos e não ter, até de sustentar a família a partir a actividade fotográfica, acha normal fazer casamentos a 300 euros, dar workshops de fotografia a 20 euros e outras diatribes, como a colocação de imagens em bancos de microstock, para serem vendidas a cêntimos, tudo coisas que vieram dar o pontapé final nas expectativas dos fotógrafos profissionais.
Imagine o leitor que é profissional de uma determinada área e que tem o seu mercado mais ou menos definido. Mas que de repente surgem na sua área específica pessoas que oferecem o mesmo serviço mas por um valor inferior, o que vai levar a uma queda dos preços, porque quem chega até tem um outro emprego certo, a tempo inteiro, e portanto pode bem praticar preços de saldo para cobrri algumas despesas do hobby... sem se preocupar se isso está a afectar os que investiram uma vida, tempo, dinheiro, a segurança da família e até as esperanças, numa actividade que parecia estar de boa saúde até meados dos anos 90.
Efectivamente, a fotografia como actividade tem-se degradado, e se existem por aí alguns arautos da ideia de que a qualidade vencerá – eu sei, conheço alguns, que escrevem uns disparates – a verdade é que no mundo real os potenciais consumidores querem a proposta mais barata, geralmente, e nem sequer pegam na bitola da qualidade. Há excepções, eu sei, mas a regra é esta.. De capas para revistas a fotos de jornais, todos procuram o mais baratinho. De fotos para anuários de empresa a outdoors de publicidade, a música é a mesma.
As agências de imagens, da Getty à Corbis, ao entrarem no jogo dos saldos, deram elas também cabo de algo que era uma actividade com regras. E a Getty, ao adquirir a iStock, ao estender os seus ramos ao Flickr e ao criar agora dentro do Flickr uma selecção especial, está a minar ainda mais toda uma profissão onde agora, a tempo parcial, há gente que do outro lado tem empregos a tempo inteiro mas trabalha deste a preços de saldos. Há-os de todas as áreas: bancários, designers, professores. Que lhes importa se vieram dar cabo de um negócio sólido, se podem levar para casa uns tostões extra... Só quando um dia o fantasma do desemprego lhes bater à porta perceberão o que fizeram. Talvez...
Ontem mesmo alguém que me consultou por causa de um workshop de fotografia me dizia que o grande sonho era tornar-se fotógrafo profissional, imaginando como seria uma vida interessante. Ah, a imagem utópica que tem quem está de fora. Dias antes, em conversa com um fotógrafo que tenta fazer um percurso nos casamentos mas sabe que a barreira dos 1500 euros de que não pretende baixar o leva a ter mais desistências do que clientes, confessava-me que não sabe se há-de desistir e rumar a outras paragens.
É num cenário assim que os britânicos se preparam para uma nova discussão em torno dos direitos de autor nesta sociedade moderna... em que tudo vale. E é a meses do encerramento definitivo da já morta SAA (Stock Artists Alliance) cuja responsável escreveu um texto brilhante, em jeito de epitáfio, no BJP, que isto tudo acontece. A SAA, para quem não sabe, é/era uma organização que nasceu há alguns anos para defender os direitos dos autores, mas se fina por não conseguir lutar contra a corrente. É por tudo isso que a nota da existência da PLUS ganha mais força.
A PLUS (Picture Licensing Universal System), existe há cerca de três anos e pretende ser uma base de dados da indústria capaz de criar a ligação perene entre os autores e as suas obras, ao mesmo tempo que define um padrão do licenciamento de obras. É um serviço sem qualquer intuito comercial, mas que pretende centralizar dados, de forma a tornar mais fácil o controlo do que é usado e por quem num mundo cada vez mais ligado pela web mas ao mesmo tempo onde é tão fácil perder-se a ligação entre a obra e o seu autor.
A PLUS está neste momento a aceitar inscrições gratuitas dos fotógrafos, para criar a primeira parte de um sistema que depois vai permitir ligar obras e autores de uma forma que torne fácil a qualquer um saber a origem e destino de trabalhos. É uma forma de contornar a ideia das “obras sem autor” que é defendida por algumas cabeças pensantes que acham que tudo o que está na web é de todos.
Enquanto alguns olham ainda com reticências para mais este esforço de criação de um directório, as vozes em defesa da PLUS começam a fazer-se ouvir. O Editorial Photographers britânico sugere mesmo que podemos estar ante o aparecimento da maior cooperativa... de fotógrafos. O que quer que seja, cabe aos profissionais espreitarem e decidirem o que fazer a seguir, para salvaguarda dos seus direitos e interesses.
Alguns nomes chave da indústria nas áreas da edição e software já marcaram presença na PLUS, mas somente quando mais autores assinarem por baixo, o volume de dados começará a fazer efeito, permitindo usar a PLUS como um entreposto de ligação entre autor e potencial interessado. Ou revelar os prevaricadores.
Num mercado onde o futuro continua incerto, e onde o presente é feito de fotógrafos de nomeada a desfazerem-se dos seus bens por não conseguirem mais manter a sua situação, graças a um mercado onde o preço da fotografia caíu ao mais baixo nível, desadequado muitas vezes da utilização a que é destinada a fotografia, e onde os lucros dos autores em bancos de imagens cairam até 90 por cento, fruto de amadores cheios de talento mas pouco inteligentes para o negócio, a passagem pela PLUS é um passo importante para profissionais – e talvez os amadores que não queiram dar tiros nos pés e sabotar a vida de outros – se registarem. Pense nisto.










































































