Polícia agride jornalistas: Portugal moderniza-se
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- Publicado em 24-03-2012
Temos pois, e estou a valer-me da informação disponível online, no website do Sindicato dos Jornalistas (o meu Sindicato, orgulhosamente) que a Direcção do Sindicato dos Jornalistas "repudia as agressões policiais de hoje, 22 de Março, sobre repórteres de imagem das agências Lusa e France Presse, vai pedir um rigoroso inquérito à Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) e exige explicações públicas do ministro da Administração Interna."
Esta posição do SJ não é diferente da que têm tomado organizações similares ao redor do mundo, sobretudo, e porque são as que tantas vezes olhamos como referência, a britânica e a americana, onde este tipo de problema têm surgido nos últimos tempos com cada vez mais regularidade, apesar de reuniões, manifestações, legislações e outras... indefinições que, parece-me a mim, grassam cada vez mais nos ditos Estado de Direito Democrático.
Não vou discutir aqui se o jovem da foto que correu mundo correu para salvar uma fotojornalista ou se escudou nela, as interpretações variam e porque o vídeo publicado não tinha guião como um filme, é difícil saber exactamente o que aconteceu. Uma coisa é certa: o polícia que agrediu a jovem viu ante si uma imensa câmara fotográfica e devia ter pensado melhor. Afinal, não é boa ideia bater no mensageiro.
Ou talvez seja, tenho eu de dizer, recordando-me do que sucedia em manifestações que cobri há algumas décadas. Venho do tempo em que fotógrafos como o Guilherme Silva, com quem passei horas de conversa, nos fascinavam com fotos como a da Camisaria Tufão, mostrando, também no Chiado de então, e com o humor que o Guilherme tinha, o "tufão" de um polícia saltando, de cassetete em riste, sobre um manifestante. Lembro-me que o simples acenar de um cartão de Imprensa levava os "choques" como então chamávamos ao Corpo de Intervenção, a correrem atrás de nós, tentando colar-nos à cabeça ou costas o cassetete (um autêntico quebra-cabeças quando usado do lado errado, afinal o nome diz o efeito), provando que era má ideia, parecia, usar a identificação.
Afinal, o próprio Sindicato dos Jornalistas reflectiu já, após o sucedido, sobre o tema da identificação, (ver nota em http://www.jornalistas.eu/?n=8892=) salientando que "A Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ) reconheceu hoje, 23 de Março, que a identificação visível de repórteres em cenários de confrontação pode ter vantagens, mas alertou que deve ser avaliada com prudência para evitar o efeito contrário: a sua transformação em alvos, como testemunhas de acontecimentos graves a neutralizar."
Estar identificado é, afinal, um pau de dois bicos. Não se sabe o que pode acontecer. Como a minha pequena história de passado demonstra e como tantas outras ao redor do mundo confirmam. E segundo uma nota no jornal Público (que leio por manter uma grafia que me faclita a compreensão) a Polícia de Segurança Pública já emitiu um comunicado onde refere que os jornalistas “têm de andar identificados”. Pois, é verdade, mas a fotojornalista da AFP que foi agredida, em comentário no artigo do Público, diz que “Não creio que tenha de estar identificada, de ter um colete ou um boné, não somos uma ameaça pública, só queremos fazer o nosso trabalho”, e lembra que a carteira profissional, que a identifica como jornalista, foi mostrada ao polícia que a agrediu. Exigir a um jornalista que ostente um colete parece-me, digo eu, um sinal de que estamos todos a ver muito a série de televisão Castle...
Além da jovem da AFP também um fotojornalista da Lusa, que teve de ser internado, foi alvo do cassetete policial, provando que este tipo de actuação não é, infelizmente, um caso isolado. Recorda-me as cargas policiais dos tempos da "outra senhora", tempo a que podemos estar a voltar, se não tivermos cuidado, de variadas formas. Por cá mas não só, como provam iniciativas como a britânica "Sou um fotógrafo não sou Terrorista!" (http://photographernotaterrorist.org/) que serve de suporte a actividades contra esta forma de actuação das forças da lei. Que lei, apetece por vezes perguntar...
Temos pois que as forças policiais portuguesas estão a seguir o exemplo das suas congéneres. Talvez seja tempo, portanto, de os fotojornalistas e os fotógrafos nacionais em geral, se unirem numa plataforma que divulgue as histórias e use todos os meios - legais e não violentos - ao seu alcance para evitar que esta "moda" alastre. Porque o mais fácil nestas coisas é encontrar quem goste de bater no mensageiro, como se tem demonstrado ao longo da História.
Saber exactamente o que se pode e não pode fotografar - o exemplo da organização "I'm a photographer not a Terrorist!" é uma ideia a seguir - é importante para definirmos o papel de cada um neste tabuleiro de xadrez. Eu sei que com tantos "fotógrafos" no terreno é difícil por vezes saber quem está lá por paixão à arte ou em serviço - e as fronteiras aqui esbatem-se, porque algumas paixões são de fotógrafos que acabarão a fazer a actividade profissionalmente - mas num tempo em que a imagem é dominante, de telemóveis a câmaras fotográficas, parece-me difícil impedir as pessoas de registarem o mundo que as rodeia, com ou sem identificação. Nos bons e maus momentos. A não ser que a polícia tenha alguma coisa a esconder? Ou alguém acima dela?












