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Carteira de jornalista?

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A minha carteira profissional definitiva, recebi-a em 1983, após dois anos de um documento provisório que me dava direito a intitular-me jornalista estagiário. Prezo-a ainda hoje. Anteriormente vivera algum tempo com cartões de imprensa emitidos – ao tempo - pelo Palácio Foz para correspondentes estrangeiros ou freelancers trabalhando para agências. A minha ligação à FPG (mais tarde absorvida pela Getty), e um período de trabalho como "stringer" para a Associated Press e uma correspondente de uma revista alemã em Portugal tornavam isso possível.  Desde o final da década de 70 que espreitava pelos jornais e revistas em busca de sugestões sobre o que podia fazer-se ali.

Excepto para algumas coisas... como ir à sala de imprensa no Palácio Foz ler os jornais, os cartões não serviam de muito... a não ser para excitar “choques” em manifestações (os mais velhinhos sabem do que falo). Era sempre divertido ver, nas ruas da Baixa, em Lisboa, como um polícia de cassetete fazia uma corrida sempre que lhe mostrávamos o cartão e apontávamos a câmara fotográfica. Cansei-me desses tempos e das “manifs” e depois com a passagem pelo interior dos jornais, acabei por crescer e levar as coisas mais a sério... e deixar de querer correr na frente da polícia.

Mas fui-me apercebendo que o meu cartão (ou carteira profissional) de jornalista era olhado como algo mágico pelas pessoas. Conhecidos pediam-mo emprestado – pediam mas não levavam – para poderem aceder a eventos, julgando que um cartão daquele tipo era chave para abrir todas as portas. Não era e não é, de facto, e por vezes mostrá-lo até serve para fechar portas que de outro modo se abririam facilmente. Mas isso parece escapar a muita gente, e terá sido por isso mesmo que surgiram empresas que vendem cartões de jornalista... como se tal fosse possível.

A verdade é que existe até gente que coloca isso no seu currículo, ostentando com garbo e ... ingenuidade (ou talvez não) uma falsificação. Como um diploma falso de final de curso. No Flickr é possível encontrar um “Black Pass” que é uma brincadeira mas reflecte uma procura, pelos fotógrafos daquele espaço social, de reconhecimento como “profissionais”. E hoje existem espaços na Web como phatism.com (www.phatism.com/kc/kc4.htm) que vendem cartões de imprensa... e muitos outros. São de brincar, mas isso está em letrinhas pequeninas...

Existem outros sítios na Internet, como a Belvine (www.belvine.co.uk) que oferecem o mesmo tipo de cartões... até de piloto. De aviões? Vai alta a aldrabice.
Estes espaços todos são, contudo, banais face a estratagemas como o da IPA – International Press Association ou da IFPO, que “vendem” não só cartões de imprensa mas um leque de outros serviços... a incautos em busca de uma credibilidade que estes cartões nunca lhes darão. A não ser em eventos de aldeia, em que o controlo de entradas é feito por pessoas sem conhecimento do que fazem.

De facto, a IPA “vende” o direito a ser-se um “member of the Press” em pacotes que podem ir até aos 250 dólares para o associado platina, oferecendo um cartão de imprensa em plástico laminado, identificação para o carro e uma série de “quinquilharia” mais. Procurei mais não vi o barrete, mas juro que devem ter um.
A IPA está tão ciente da verdade da sua missão que até alega na página da Internet que existem por aí cartões falsos em venda – parece que os chineses entraram no negócio – o que é uma situação engraçada: uma coisa que é falsa no Ocidente copiada pelo Oriente. Curiosamente a história parece adaptada de uma outra, essa verdadeira: a da IFJ (a Federação Internacional de Jornalistas, órgão legal que credencia jornalistas dos sindicatos de diferentes países com um documento REALMENTE reconhecido internacionalmente) que apresentou queixa contra uma alegada associação chinesa que emitia carteiras de jornalista da FIJ. É quase como se a IPA quisesse viver a mesma situação porque isso lhe daria credibilidade. Nós é que somos os verdadeiros, os outros falsos... Que confusão...

A IPA não é a única, porque também existe, desde 1984, uma IFPO (International Freelance Photographers Organization), que publica uma revista, a Today’s Photographers Magazine (que serve de desculpa para os seus jornalistas terem um cobiçado cartão...) que até já vi na banca em Portugal... Nós comemos tudo, é verdade, a visão comercial dos empreendedores importadores é de louvar...

A IFPO, que surge referida no currículo de alguns fotógrafos nacionais, alega ter 75 mil membros em 144 países e “vende” de tudo: de cartões de imprensa a diplomas de Master Photographer. Deve ser por lá que alguns adquiriram os que possuem, calculo...

A IFPO tem até um cartão universal de imprensa, que é tão secreto que nem tem imagem na Internet... se bem que a FD tenha encontrado a imagem aqui publicada numa outra página desse mundo que é a Internet.

Estas organizações vivem de enganar incrédulos que acreditam ou querem acreditar que uma carteira de jornalista – o que é mais procurado, por permitir, supostamente, aos fotógrafos amadores acederem aos mesmos espaços que os profissionais - se pode comprar na Internet. Basta fazer as contas para perceber que não é um mau negócio para quem o montou, até porque, vá lá saber-se porquê, algumas destas organizações acabam por ser referidas em publicações como pistas a exporar pelos amadores. A verdade é que uma destas credenciais pode servir para enganar os responsáveis do clube de futebol lá da terra (que se calhar até o deixam entrar se explicar o que pretende fazer e lhes oferecer algumas fotos...) ou do teatro da localidade, mas não servem para mais do que isso. De facto, nem sequer valem o que se paga por elas.

Leitor, se chegou até aqui, tenho de pedir-lhe desculpa pelo título de tablóide usado. Serviu o que se pretendia. Alertá-lo para mais um engano do mercado. Agora já sabe.

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