Lançada em Março de 2009, a revista Pilfered vive de fotos roubadas ao redor do mundo. Chamam-lhe a liberdade da Internet. A edição de Fevereiro de 2010 está na forja e nada parece capaz de parar este abuso dos direitos intelectuais de terceiros. Mas os autores estão a movimentar-se para acabar com o "gamanço".
A tecnologia que nos permitiu criar uma rede por todo o mundo está a servir para asfixiar muitos dos que nela participam. Fotógrafos, escritores, artistas gráficos sofrem as agruras de um mercado em mudança, com a concorrência de países com baixo custo de mão de obra, que chegam através da Internet e oferecem preços incomportáveis.
Exemplos? Uma rede de trabalho europeia que consulto regularmente está sempre cheia de respostas oriundas de países a Oriente, que cobram valores impensáveis por trabalhos que aqui custariam mais. E não falo em trabalho manual, não especializado. Mas alguém estará disposto a escrever/fazer um artigo/foto para publicação por dois dólares ou menos? No Ocidente não, até porque não paga coisa alguma, mas há quem até tenha equipas prontas a fazer esse trabalho, e ofereça, numa rede europeia, o seu trabalho vindo de bem longe. E claro que há em aceite...
Mas este é só um dos lados da questão. Há quem roube o trabalho de outros e o apresente como um sinal dos tempos vindouros. Um exemplo recente é a revista Pilfered (o termo inglês significa roubo feito em pequenas quantidades mas repetidamente) que se arroga o direito a reunir fotografias de diversos autores ao redor do mundo e organizá-las em edições mensais, muitas vezes sem sequer atribuir crédito aos autores. Desculpam-se os responsáveis que por vezes nem sequer sabem o nome do autor dos trabalhos, mas isso não os impede de usarem os materiais na mesma.
O sítio da Pilfered, que começou por receber o aplauso de uma série de visitantes (fica por saber que consciência tinham do que realmente sucedia...) tem nos últimos meses sido alvo de uma campanha cerrada de autores, alguns deles com material usado sem licença pela revista. Mas nem isso parece ter impedido os responsáveis de continuaram a manter aberta a porta de um projecto que não respeita a propriedade intelectual de terceiros.
Interessante é que os fundadores do projecto se apresentam clamando que passaram horas na web reunindo material para apresentações para vários anúncios comerciais e trabalhos editoriais e cientes do tempo que demora a reunir esse material decidiram criar uma imensa colecção feita pelas pessoas para as pessoas. Esqueceram-se tudo o indica, é de perguntar às pessoas cujos trabalhos usaram se os podiam usar.
Mas este parece ser o sinal de uma "revolução" que muitos acham ter de suceder: a da liberdade de utilização gratuita do trabalho criativo de outros. As pessoas acham que tudo o que está na Internet é grátis, da música à fotografia. E que os criadores das obras as devem distribuir gratuitamente pela comunidade. Esquecem-se de que produzir aquelas obras “é o trabalho” dos autores cujas músicas, fotos ou o que quer que seja roubam. E que esse trabalho tem de ser pago ou os autores não conseguem viver.
É exactamente sobre isso que escreve James Rainey no Los Angeles Times, num artigo que aconselho os leitores a lerem com atenção. Nele se descobre que até Jason Lanier, pai da Realidade Virtual e um dos paladinos da liberdade da Internet, clama hoje contra o que chama de “Maoísmo digital” ou “totalitarismo cibernético”.
Lanier afirma que “a cultura tecnológica dominante diz que toda a gente deve oferecer os seus conteúdos e conhecimento. E depois é suposto que façam dinheiro através de aparições pessoais, a venda de T-shirts ou qualquer outra coisa. Isso não ajuda o fotógrafo ou artista gráfico que tentam sobreviver actualmente.” Para Jason Lanier não existe qualquer solução mágica e imediata para o problema, “vai ser necessário esperar 10 ou 20 anos até que as pessoas deixem de apoiar este tipo de ideias. Entretanto muitas pessoas estão a ser... lixadas”.
O texto do Los Angeles Times explana ainda uma série de situações, muitas delas relacionadas com a fotografia, que vale a pena ler. E sobre as quais é bom meditar.. Outra leitura a fazer também é a publicada no sítio Photo Business News & Forum sobre o caso Pilfered. São artigos cuja distribuição aconselho o leitor a fazer pelos seus contactos. Isto, claro, se acha que o que ali se diz é razoável. Porque infelizmente acredito que alguns dos que me lêem também acham que na Internet tudo é grátis.
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