Profissional
Fotografia de casamento: trabalho sem arte?
- Publicado em Quarta, 28 Julho 2010 08:32
A fotografia de cerimónias de casamento é a direcção de muitos fotógrafos em busca de trabalho, mas na generalidade todos a consideram uma arte menor, necessária à sobrevivência. Existe uma aversão ao trabalho, como se fosse algo impossível de fazer com criatividade. Será realmente assim?
Em recentes conversas com diversas pessoas apercebi-me, de novo, desta dualidade: fotógrafos que decidem enveredar pela fotografia social ou de casamento (dado que é essa última actividade que mais tocam do social da fotografia...) mas que "odeiam" ter de o fazer, olhando a prática como uma espécie de função básica dentro da fotografia.
Venho de um tempo em que, de facto muita fotografia social era feita no modo "500, 8" - alguns sabem do que falo, os que não sabem... bem também não vou dizer, já escrevi isto antes - e ainda por aquilo a que se chamava paraquedistas, que "aterravam" à porta das igrejas muitas vezes em busca de serviços de ocasião, sobretudo... baptizados, onde por uma série de razões, a fotografia de casamento era, salvo uma ou outra excepção, muito uniforme, toda realizada da mesma maneira. Portugal nos anos 80 era assim. Eu viera da Grã-Bretanha, em 82, fresco de dois anos de contacto com a realidade britânica e de um curso de fotografia e fotojornalismo, e com algumas ideias do que por lá se fazia. Que era, já na altura diferente.
Fui dos primeiros fotógrafos a usar 35mm em casamentos - com todos os problemas de sincronismo de flash que isso causava na altura, como alguns saberão - apesar de o fotógrafo com que trabalhava usar Bronicas, com que acabei por familiarizar-me então. Mas o 35mm estava a crescer em casamentos e lembro-me de ver um fotógrafo com quem convivi naquele período começar a fotografar baptizados com uma compacta de boa qualidade, numa evidente ostentação de corte radical com o que se fazia e com as regras. Esse mesmo fotógrafo tentava já dar um rumo novo aos casamentos no que à fotografia toca, experimentando, com recurso a filtros como os da Cokin, em voga por aquele tempo, e com soluções de enquadramento fora do habitual.
É de todo esse processo que nasce a nova fotografia de casamento e, depois a reportagem ao estilo fotojornalístico, que serve para dar uma outra dimensão - mas também por vezes esconder lacunas no conhecimento da construção das imagens ícone de um casamento -, à cobertura fotográfica do momento.
Trata-se, apesar de tudo o que se possa querer dizer em contrário, de um momento especial para quem decide simbolizar nessa cerimónia uma união, e por isso mesmo trata-se de um acontecimento que merece ser fotografado como algo de muito especial e não como "mais um serviço". Infelizmente, para muitos - e são esses que degradam o bom nome da fotografia nesta vertente -, continua a ser somente "mais um" e não algo em que se empenham para criar imagens que vão além do ordinário que vemos em muitas montras de fotógrafos ainda presos ao modelo passado.
É por isso mesmo que escrevo esta nota. Porque ainda há esperança enquanto fotógrafos como Bruno Cardoso - e sei de mais, mas a Fotodigital acolheu a visão do Bruno Cardoso desde o primeiro momento que ele me contactou, e vai mostrando um ou outro trabalho do autor - continuarem a provar que cada casamento coberto é uma aventura de exploração fotográfica. Claro que existem sempre imagens repetidas, afinal tantas como as de um fotógrafo de Natureza que repete sempre as mesmas imagens de orla costeira em longa exposição, mas entre todo esse trabalho existe sempre, além de uma unidade que gira em torno da figura dos noivos, uma vontade de fazer mais e melhor que leva, cada nova série de fotos de Bruno Cardoso e do seu Mito Urbano, a ser um exercício que, suponho, deixará noivos agradados com o investimento de tempo nessa encenação - uma vontade e disponibilidade que faltava também aos noivos de outrora - e que se traduz em algo que se resume em duas paalvras: excelentes fotografias.
Se não acredita, espreite as mais recentes fotos de Bruno Cardoso.
O exemplo que vem de Bruno Cardoso é de que cada serviço é um desafio à imaginação, em que o fotógrafo só tem a ganhar ao investir na exploração de novos processos, na continuada análise do que outros estão a fazer e na vontade de ultrapassar todos os condicionalismos para obter resultados que contribuam para a magia que devia matizar todo o evento. Claro que noivos capazes de entender tudo isto são uma ajuda, e aí pode sempre residir o problema do trabalho do fotógrafo. Mas atingir um grau de resultados como o de Bruno Cardoso permite, acredito, gerir que serviços se aceita, deixando para os outros, os "mais um serviço", o resto. Afinal, nem sempre os maus resultados fotográficos de um casamento são culpa do fotógrafo. A postura dos que desejam ser fotografados também influencia de forma activa o que fica nos rectângulos de papel impresso.
A fotografia de casamento devia ser, afinal, olhada como qualquer outro desafio. Como fotografar uma prova de atletismo procurando os melhores ângulos, como a construção artística de paisagens ou a cobertura de um espectáculo musical. É um desafio que põe à prova múltiplas capacidades do fotógrafo e pode fazer dele um melhor profissional. E satisfeito por ter um novo serviço pela frente. Que aborda com profissionalismo, tranquilidade e prazer.
Existe sempre um plano mais formal de cada trabalho, com as fotos da cerimónia e dos convidados, no próprio dia, a serem porventura o aspecto menos criativo, pela rapidez da acção exigida e pelos constrangimentos próprios da presença de muita gente cujo movimento é difícil controlar. Aí, uma boa cobertura em estilo de reportagem pode ser a solução, com a procura de perspectivas novas a oferecer uma evidente amplitude de horizontes. Mas para atingir esse ponto será bom explorar antes os modelos mais convencionais, até ensaiando com um grupo de amigos os momentos formais. Invente um casamento e fotografe-o. Pode ser uma experiência divertida.
A construção do portfolio dos noivos deve ser o momento de liberdade criativa total - e é aí que o fotógrafo pode explorar situações que não consegue controlar no decurso da cerimónia oficial. Afinal, em cada trabalho, mesmo de fotografia, existe sempre um lado mais formal, mas necessário, e depois um espaço para criar. Saber jogar com essa duplicidade dará aos que olham este serviço como algo menor a oportunidade de se sentirem mais satisfeitos. E deixará aos noivos, provavelmente, aquilo que eles mais anseiam: uma colecção de fotos que marca um momento de sonho, como desejamos que todas as expressões de amor sejam. É essa ambiência que se encontra na fotografia de Bruno Cardoso.
Se está algures neste percurso e se identifica com o que se escreveu acima, talvez esteja na altura de passar o olhar pelas fotos de Bruno Cardoso. E partir dali para a busca de muitos outros fotógrafos com um excelente trabalho na área. Inspire-se com uma dose regular de análise do trabalho dos outros. Dos "bons" outros. Talvez aí comece a olhar a fotografia de casamento com outros olhos.











































































