Câmaras
Fujifilm X100: o prazer de um visor a sério
- Publicado em Sábado, 31 Dezembro 2011 15:02
A Fujifilm fez-me chegar uma X100 para brincar. Brincar é o termo correcto, algo que vou fazer ao longo de alguns dias, publicando aqui na Fotodigital descobertas. Começando pelo visor, uma peça de engenharia ímpar, que tem de ser usado para se entender tudo o que faz.
A Fujifilm X100 é uma recuperação dos modelos clássicos da fotografia. Tecnologia moderna num aparelho de sabor antigo. Já lemos tudo o qu havia para ler sobre a câmara, mas poucos tiveram oportunidade de lhe pegar a sério, para descobrir como se processou esse casamento entre passado e presente. Sim, porque esta câmara representa a ligação entre dois mundos distintos, cruzados em elementos tão relevantes para o futuro da fotografia como o visor híbrido criado para este modelo.
Confesso que peguei na câmara para fazer fotos sem sequer me deter a ler manuais ou aprofundar o que já lera. Pois bem, é fácil fazer fotografia e obter resultados sem esses apoios. É-o sobretudo quando se sabe a lógica dos processos fotográficos dos tempos em que as câmaras usavam um anel de diafragmas na objectiva (presente aqui, fantástica experiência para quem vem desse período) e uma roda de velocidades no topo do corpo. É uma experiência que aconselho.
A Fujifilm X100 é uma câmara com uma objectiva fixa, de 23mm, num sensor APS-C feito propositadamente para aqui. Mas o que me interessa verdadeiramente espreitar nesta primeira abordagem é o visor. Uma coisa é ler sobre um visor híbrido, bater palmas ante o conceito, a outra espreitar pelo dito, entender a mecânica do processo, até se começar a sentir que tudo aquilo faz sentido. Efectivamente, se em aparelhos reflex o visor, por ser óptico, nos garante uma visão límpida do que fotografamos, nas modernas câmaras compactas temos assistido a uma diversidade de soluções insatisfatórias, baseadas em circuitos electrónicos que para mim sempre foram uma espécie de barreira entre o fotógrafo e o que se fotografa, e que me dão a sensação de estar a fotografar através de um... vídeo-porteiro. Tenho usado o termo amiúde desde há uma década, quando na edição em papel da Fotodigital escrevemos sobre os primeiros visores deste tipo e por causa do que escrevemos deixámos os distribuidores nacionais de câmaras às avessas com a nossa escrita.
Os visores electrónicos evoluíram, é verdade, mas continuam a não oferecer a mesma limpidez de um visor óptico. Existem por aí soluções que exploram aproximações, mas em termos gerais ou temos visores directos como o da Canon G12, que são túneis despidos de informação, ou os visores electrónicos das Lumix G e Olympus Pen, externos ou integrados. Promete-se, agora, que vão surgir visores semitransparentes, orgânicos e muito mais (parece ser a moda), mas o que temos de palpável e já com provas dadas no terreno é este visor híbrido da Fujifilm que surge na X100 mas já não aparece na X10, por razões óbvias e que é importante reter: este tipo de sensor não vai poder ser aplicado a câmaras com objectivas zoom integradas ou intermutáveis, simplesmente porque tem de ser concebido para determinada focal. Essa parece ser a limitação evidente do sistema, o que todavia não deve deixar de nos levar a olhar com atenção para esta promessa, que, quem sabe, pode acabar por ser o ponto de partida de futuros visores capazes de oferecer a informação do mundo electrónico e uma visão cristalina do que se fotografa.
Todos conhecem as limitações dos ecrãs traseiros de diferentes origens quando se trata de fotografar em zonas com muita iluminação: por vezes não deixam ver o que se está a fazer. Quer sejam AMOLED, retro-iluminados ou de qualquer outra tecnologia, pecam sempre por constrangirem a prática fotográfica séria, mesmo quando os fabricantes dizem outra coisa. E no que toca a visores electrónicos, o problema subsiste, em maior ou menor grau.
Ciente de tudo isso, a Fujifilm decidiu investigar as soluções possíveis para esta X100 que pretendia posicionar como ponto de partida de uma gama que, tudo leva a crer, nos devolve uma Fujifilm cheia de pujança na procura de soluções que interessam aos fotógrafos conscienciosos. A X10 e agora o que se vai seguir são sinais evidentes dessa procura. E o visor híbrido da X100 é um sinal de esperança e uma experiência que só mesmo feita com o aparelho nas mãos nos dá a visão completa do que a equipa criadora do aparelho fez. Confesso que foi mesmo necessário recorrer a alguma leitura para entender a mecânica do visor híbrido, mas uma vez descoberto o funcionamento, o que tenho pela frente é o melhor de dois mundos: um visor electrónico que me dá uma variedade imensa de informação e, com um simples gesto do dedo indicador na alavanca na frente do corpo, a limpidez de um visor óptico onde a informação essencial está presente... e que integra mesmo um nível electrónico que parece bem a propósito num aparelho que parece boa opção para fotografar vastas paisagens... com horizontes direitos.
Existem diferentes opções de apresentação da informação em ambos os visores, o que evidencia o cuidado em satisfazer diferentes públicos. Debruço-me sobre o visor óptico, que apresenta uma solução com a informação essencial, "à antiga" diria eu, com somente os valores de abertura e velocidade, sensibilidade ISO e a escala de compensação, e uma moldura brilhante ao jeito de muitos visores de aparelhos de telémetro de outros tempos. Opcionalmente é possível ter ali, ainda, linhas orientadoras da composição, o nível já citado, indicação do estado da bateria, da qualidade e quantidade de fotos a gravar, estado do flash, fotometria em uso, e até uma escala de distância de foco, além de outras informações consoante as escolhas feitas no menu. É impressionante, porque é possível ter tudo isso enquanto se vê a imagem real enquadrada na objectiva.
Este sistema tem os mesmos problemas dos de imagem real com moldura brilhante já conhecidos no passado: com muita luz a moldura pode, por vezes, ficar menos visível, bem como alguma da informação. Mas nada que se compare aos problemas dos visores electrónicos. E neste caso torna-se possível comutar entre um e outro (e o electrónico até funciona bem) em instantes e sem deixar de espreitar pelo visor.
O visor de moldura brilhante é uma reminiscência de aparelhos de outro tempo, e no caso da Fujifilm pode ser encontrado em modelos de médio formato como a GS645 que - ainda - possuo. O casamento com um LCD, de modo a permitir que informação sobre a exposição flutue no visor, um pouco como o HUD (Head Up Display) presente em algumas aeronaves e agora também em alguns modernos carros, é uma espécie de cereja no topo do bolo, casando o prazer de se fotografar "à maneira antiga" com as vantagens da tecnologia moderna. É isso que a Fujifilm X100 faz: dá-nos, do corpo ao modo de funcionamento, um bilhete de visita ao passado da fotografia, com tudo de bom que essa nostalgia pode ter, sem deixar de aplicar a tecnologia que trouxe a fotografia até aos nossos dias. Para quem realmente gosta de fotografia, é uma excelente solução. Há um prazer especial em espreitar por este visor, uma revitalização do acto fotográfico que, em última instância, pode servir a alguns para aprenderem, realmente, a fotografar. Porque é isso que que esta Fujifilm X100 desafia a fazer: fotografar com os sentidos.
Encontra o aparelho para compra em J. Valles, Lda, em Lisboa. Experimente-o. Em breve voltarei a escrever mais algumas notas nesta espécie de diário da X100.









































































