Câmaras
Olympus: o regresso das OM
- Publicado em Sexta, 20 Janeiro 2012 20:46
A Olympus pode estar a preparar o regresso da sua série de câmaras reflex OM em versão digital. É uma saudável recuperação do passado, mas há que rezar para que não signifique o desbaratar de uma boa memória.
Recuperar sinais do passado para implementação no presente é algo que pode ter duas vertentes: correr bem... ou correr muito mal. Ninguém, que seja mais velhinho, se esquecerá do que foi a recuperação moderna do velho jornal O Século - onde muitos tiveram, em visitas escolares, um primeiro contacto com a Imprensa escrita do tempo do chumbo. Foi um desastre que arrastou pela lama algo que havia morrido no fim do seu tempo.
Há mais exemplos de que, por vezes, é melhor deixar o passado sossegado. Felizmente existem também sinais de que algumas recuperações são boas. Nos automóveis, o novo Mini e o Volskwagen Carocha parecem ser exemplos. Em relação ao rumor de que a Olympus pode estar a preparar o regresso da sua reflex mais popular, devo confessar que é ao mesmo tempo com entusiasmo e algumas reticências que penso nessa hipótese.
A Olympus criou com a série OM um marco na indústria, nos anos 70. Os modelos profissionais tinham um algarismo enquanto a série para o grande público entrava nas dezenas. A partir de 1972, com a OM-1, a marca definiu um terreiro de manobra que se foi alargando entre profissionais e amadores. Em 1980, quando vivi na Grã-Bretanha, a minha sócia num pequeno negócio de fotografia na altura precisava de uma máquina e aconselhei-a a comprar uma OM10, acabada de lançar em 1979, e que era o modelo de que todos falavam. Barata, a OM10 bebia nas linhas da gama profissional, oferecia prioridade à abertura e através de um pequeno acessório possibilidade de controlar a velocidade para um manual completo.
O meu cunhado era um aficionado Olympus e só abandonou a marca porque na passagem para sistemas autofoco a Olympus simplesmente desistiu, depois de produzir dois modelos, OM707 e OM101 (se não contarmos com uma Cosina rebaptizada de OM2000) que não se revelaram capazes de manter a tradição. Tive, portanto, uma vasta convivência com Olympus, e conheço o equipamento suficientemente bem para ficar entusiasmado com a ideia de ter uma OM-D (e aqui foge-me sempre a mente para pensar numa OMDez em vez de OMDigital) no mercado. É uma iniciativa de saudar.
Por outro lado temo que esta OM possa manchar a imagem pretérita que temos da série que fez a fama da Olympus nos bons velhos tempos... se excluirmos os modelos AF de má memória. E é isso que me preocupa: há coisas em que é melhor não mexer. Seria uma pena que a recordação moderna da sigla OM fosse a mesma que alguns terão da versão moderna do jornal O Século. Porque O Século que existiu em Portugal de 1880 a 1978, mesmo com as pechas que se lhe pudessem apontar, era um jornal de boa memória, algo que não se pode dizer do O Século "recuperado" em 1986 e de curta duração e ainda menor interesse. Mais valia terem deixado o nome sossegado.
É isso que temo em relação à OM. A Olympus vai reinjectar animação no Micro Quatro Terços, introduzindo o que parece ser o primeiro modelo "profissional" no segmento, o que pode ser uma boa ideia mas deixa uma questão logo à partida: o que vai suceder à linha profissional Quatro Terços de que a E-5 é o topo? São estas mudanças de rumo e incertezas da Olympus - a que podemos associar as recentes confusões económicas - que me deixam perplexo e reticente. Eu ADORAVA ver uma OM digital com o sabor dos modelos de ontem e a tecnologia (alguma) que os rumores dizem que esta OM vai ter, mas o que é que isso significa, realmente? E que futuro pode ter? É que investir numa câmara de sistema, apesar de tudo o que os fabricantes dizem, e do ritmo alucinante de lançamentos de novos modelos todos os seis meses - ou coisa que o valha - não é como comprar uma camisa nova. Que garantias vai a Olympus dar de que não abandona o terreiro a meio do jogo? É que é isso que o mercado tem sentido com as notícias contraditórias em torno do Micro Quatro Terços, do futuro do Quatro Terços, etc. E eu pessoalmente prefiro guardar da série OM a memória de algo muito bom no passado do que de um desastre mais dos modernos tempos digitais.
Balizado o terreno em torno da minha opinião, se os rumores estiverem certos, a 8 de Fevereiro teremos novidades. Uma OM-D que segundo o website 43 Rumors (que costuma ser a fonte de todas estas mentiras e verdades) terá um sensor de 16 milhões de pixéis, sensibilidade de 200 a 25600 ISO, corpo em liga de magnésio e... um visor electrónico que surge exactamente onde antes estava o pentaprisma... o que sugere que o corpo vai ter o mesmo formato e aquela bossa a meio... algo que me deixa com uma pergunta: então por que carga de água não deixam lá o espelho, que continua a ser a melhor forma de ver o mundo a enquadrar?
Esta minha rebeldia face aos visores electrónicos continua porque nada se compara à transparência de um visor óptico - nem mesmo o excelente visor híbrido da Fujifilm X100 com que ando a brincar - e começo a pensar que não é pela dimensão do pentaprisma que o problema se coloca. Afinal, as objectivas continuam grandes, e se a Olympus já sabia fazer aparelhos reflex pequenos no tempo da OM10 podia fazer o mesmo agora. Querem provas?
A OM 10 tem 135x84x50 mm e 430 gramas de peso e a nova PEN E-P3 tem 122 x 69 x 34 mm e 369 gramas. E nem quero pensar na E-5, que tem 143 x 117 x 75 mm e pesa 800 gramas. Quem disse que a ideia do Quatro Terços era fazer câmaras mais pequenas do que as de 35mm?









































































