A Canon enviou-me a G11 e S90 em simultâneo, para comparar corpos diversos com corações semelhantes. Qual escolheria? Uma resposta nem sempre fácil, mas a S90 ganha, num universo onde tudo está a mudar. A Canon necessita urgentemente de tornar-se EVIL...
Olhada como a segunda escolha de profissionais quando necessitam de viajar leves, a PowerShot G11 da Canon continua o percurso da G10, agora com 10 em vez de 14 milhões de pixéis, equipada com um ecrã traseiro móvel, algo que abre outras hipóteses sobre o modelo anterior (onde a marca o esquecera), um zoom correndo de 24 a 140mm (5x) e o leque de opções habituais num modelo desta classe.
Não vou perder tempo a enumerar as características técnicas e tudo o mais que este modelo oferece, desde Novembro do ano passado que sítio atrás de sítio e revista após revista fizeram esse trabalho. Vale a pena salientar, contudo, que a Powershot G11 chega a um mercado muito diferente do que encontrou a G10 quando saíu.
Em 2008 a ideia de aparelhos compactos diversos dos tradicionais no segmento digital era ainda somente uma miragem e nem modelos como a Panasonic Lumix G1, apresentada na mesma altura, garantia que o Micro Quatro Terços ia disparar. Mas em 2009 o cenário mudou e o rápido lançamento da Olympus E-P1 e da Lumix GH1 vieram redefinir todos os horizontes do mercado. A criação de modelos compactos com objectivas intermutáveis e sensores de qualidade que uma compacta nunca conseguirá atingir abriu uma nova frente de combate e um referencial que se posiciona entre a DSLR e a compacta, mais próximo da primeira do que desta última em termos de qualidade, mas ameaçando o universo compacto, pelo menos para os que exigem mais do que os pequenos sensores conseguem dar.
De facto, a limitação das compactas como a G11 ou a S90 é o sensor. O ensaio destes modelos levou-me de novo a considerar que por muito divertido que seja fotografar com uma câmara pequena, os resultados são sempre inferiores aos que se consegue obter com um modelo do sistema Quatro Terços (agora na variante Micro Quatro Terços, que nos deu a nova geração de Lumix e Panasonic) . Basta a dimensão do sensor para marcar a diferença.
Legenda (Canon Powershot G11)
As fotos ilustram o que se fez com a Canon Powershot G11. Imagens de interiores a 3200 ISO em alguns casos revelam que como memórias as imagens valem, mas que a sua utilização é limitada. De facto acima de 400 ISO começam os problemas, pelo que o sensor com menos pixéis do que a G10 não parece ter resolvido tudo. mas um aparelho deste tipo é sobretudo um divertido bloco de notas que facilmente se leva para todo o lado para registar momentos que de outra forma nunca seriam fotografados. Pelo menos é assim que penso...
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Canon PowerShot G11 Prós: Comandos mais "profissionais" ao alcance dos dedos, ligação a flashes Canon Contras: Visor não presta, resultados a elevada sensibilidade não são tão bons como sugerido |
Para este ensaio geral dos equipamentos fiz o que faço habitualmente. Apesar de ter usado a G11 para fotografar alguns objectos em estúdio (foto da lata de feijão de Lucky Luke), foi sobretudo nos momentos de lazer que usei ambas as câmaras, repetindo sempre que possível as mesmas imagens, para “sentir”, além dos aspectos técnicos, o que é usar aparelhos da mesma marca mas com filosofias distintas.
Almoços em restaurantes, pormenores no caminho, coisas do quotidiano para que estes aparelhos parecem especialmente indicados foram sendo registados ao longo de duas semanas, o tempo mínimo que peço para poder brincar com uma câmara destas, integrando-a no meu ritmo diário.
A Powershot G11 é, nesse contexto um aparelho simpático, mas na comparação com a S90 não posso deixar de pensar que ia por esta última. É verdade que não tem o ecrã traseiro móvel e o zoom é mais curto (28-105mm), mas por outro lado pesa menos (195 gramas contra 375) e é efectivamente embolsável até numa camisa, algo que a G11 não permite.
A G11 oferece um obturador até 1/4000 contra 1/1600 ISO da S90, mas não será por aí que me deixo levar. E sim, a G11 tem um visor óptico que falta na S90, mas para ter aquele canal estreito que nos retira toda a informação e nem sequer parece bem alinhado com o que se fotografa (erro de paralaxe, se vem de antigamente) prefiro olhar pelo ecrã traseiro. De facto, a G11 foi feita para se olhar pelo ecrã traseiro e o visor está lá só para dizerem que existe. Não serve.
Com o mesmo coração, a Powershot G11 e a S90 fazem o mesmo em termos de lidar com a luz. O que significa que quando a luz se vai se tem a desagradável surpresa de o ruído tomar conta da imagem. E nem sequer a redução de pixéis da G10 para a G11 parece ter feito muito, por mais que a Canon diga, para que valha a pena trocar a G10 pela G11. Claro que não havendo aquela terá de ser pelo último modelo que se vai. Mas se esta era a forma de a Canon marcar uma posição face ao avanço do Micro Quatro Terços, bem que pode mudar de estratégia. E tornar-se EVIL... ou seja mostrar a Electronic ViewFinder Interchangeable Lens sobre que correm tantos rumores.
Na prática, o ruído é visível a partir de 400 ISO, podendo tornar-se mais ou menos incomodativo consoante o grau de ampliação que se pretende fazer da imagem e o fim a que a mesma se destina. Em termos gerais diria que os resultados a sensibilidades acima de 800 ISO são bons para instantâneos e memórias mas não são o que escolheria para fazer uma ampliação para emoldurar. Claro que esta noção variará de pessoa para pessoa, mas venho de um tempo em que para lá de 100 ISO só mesmo o Ilford HP5 era aceite. E como utilizador irredutível de diapositivo nos anos 80, sempre usei 100 ou menos ISO.
O que escrevi para a G11 é válido para a S90. Tenho alguns registos feitos a sensibilidades até 3200 ISO e como apontamentos de memória são utilizáveis mas não são os que escolheria para mostrar a fotografia que faço. Acho que é com esta noção bem definida na cabeça que se deve partir para a escolha e aquisição de um destes modelos. Que são, afinal, tão iguais nos resultados que se fica a pensar se não são de facto irmãs separadas à nascença.
Legenda (Canon Powershot S90)
O facto de ser realmente pequena torna a S90 numa sedução que se impõe mesmo ante a irmã maior. Os resultados são idênticos e a S90 acaba por ter na interface aspectos que a levam a tornar-se mais amiga do utilizador do que a G11. De novo é de um aparelho para apontamentos que se trata, revelando que os sensores mais pequenos necessitam urgentemente de ser trocados, se as marcas desejarem fazer fotos em situações de menor luminosidade sem ruído.
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Canon PowerShot S90 Prós: Anel configurável para várias funções no barril a objectiva, dimensões, resultados Contras: Os botões são demasiado sensíveis sendo fácil activar uma função sem querer quando o que se pretende é fotografar. |
Se o são, a S90 acabou por sair melhor do que a G11, oferecendo uma interface com o utilizador mais apetecível. Ambas colocam problemas com tantos botões colocados nas áreas onde as mãos vão cair, e que parecem prontos para activar-se quando menos se espera, contribuindo para que por vezes se perca uma foto porque algo inesperado aconteceu... o ecrã traseiro ilumina-se e o momento mágico perdeu-se.
Não é possível afirmar se para o leque de comandos habitualmente usados, um aparelho é melhor do que o outro, trata-se de uma questão de escolha e de habituação. A G11 tem a vantagem de ser mais fácil de segurar, por ser maior, mas por outro lado a esguia S90 cabe em qualquer lado... Pessoalmente, prefiro levá-la num bolso para fotografar do que carregar a G11.
Há, contudo, um aspecto em que a S90 ganha abertamente à irmã maior. Um botão no topo da S90 (Ring Func.) abre para uma função nova: a capacidade de definir que funcionalidade é associada a um pequeno anel na zona do barril da objectiva, que parece um anel de focagem. De facto é um anel de focagem mas não só. Essa é uma das opções: o mesmo anel pode ser definido para ajustar o modo de disparo (o valor de diafragma como se seleccionaria numa objectiva), mudar o ISO, compensar a exposição, focar manualmente, controlar o equilíbrio de brancos ou o zoom. Um anel que se assemelha ao de O Senhor dos Anéis, não ao controlar os outros todos mas ao controlar seis funções distintas. Boa ideia!
A função de zoom do anel é de facto mais uma função de reposicionamento da objectiva a distintos valores focais (28,35, 50, 85 e 105mm), o que é uma forma rápida de obter um enquadramento aproximado do que se pretende, algo nem sempre fácil em aparelhos compactos com zoom eléctrico. A partir dali é possível usar o anel de zoom em torno do obturador para afinar a focal, até porque este controlo na S90 parece mais fiável do que o da G11, que se reposiciona ligeiramente após o utilizador largar o comando, tornando difícil o ajuste preciso da focal.
Resumindo este elencar de aspectos fundamentais dos aparelhos devo salientar que usei a G11 com uma unidade de flash externa da Canon, o que não se pode fazer com a S90. É um aspecto a ter em conta se pensa tirar partido dessa relação do equipamento. Numa altura em que todo o mercado se vira para os filmes em HD ou Full HD é bom recordar, também, que a Canon se esqueceu desse aspecto nestes aparelhos, pelo que é de filmes a 640x480 que se fala aqui, o que coloca ambos os modelos distantes dos 1280x720 que são a porta de entrada nesse novo mundo.
Dito isto, se eu tivesse de escolher, ia pela S90, que me deixou encantado. De facto é crível que a Canon tenha apostado muito forte no aparelho, como forma de concorrer com a Lumix LX3, que continua a ser uma referência... de que este modelo se aproxima em termos técnicos. Mas nada me faz esquecer que o mercado já não é o mesmo e que os valores de cerca de 400 euros para a S90 e de quase 500 para a G11 se aproximam muito do que a Olympus indica vai pedir pela nova PEN E-PL1 – 599 euros - com que a marca dá uma machadada nos preços do Micro Quatro Terços, voltando todo o mercado de cabeça para baixo...
Há um lugar para modelos compactos, com sensores pequenos, mas não é na luta pela fotografia em baixas condições de luz. De facto, para sensibilidades até 400 ISO diria que qualquer compacta serve, mas que a partir daí, e tivemos todo este tempo para verificar que não se fazem milagres - a passagem de 14 para 10MP entre a G10 e a G11 sugere isso - e que é fisicamente impossível colocar mais pixéis nos sensores pequenos e manter ou elevar a qualidade. Portanto, o caminho passa por aumentar o sensor.
Uma nota de rodapé para agradecer ao meu filho Miguel e à minha companheira por me ajudarem na realização deste ensaio, quer fotografando-me - o que odeio - quer fazendo alguns dos registos que serviram para depois criar os diaporamas que encontra nesta página.
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