Prática
Pôr do sol à janela da cozinha
- Publicado em Quinta, 06 Janeiro 2011 09:46
Quando algumas pessoas olham para as minhas fotos do pôr-do-sol pensam que vivo num lugar fantástico no campo. De facto vivo num mar de prédios encavalitados na paisagem que se estende sob a minha casa. Mas a minha janela da cozinha é uma plataforma única para apreciar os fins-de-tarde.
Este Inverno não parece ser o momento indicado para falar de sol e de fins de tarde cheios de cor, mas na verdade essa iamgem assalta-nos quando menos esperamos. Ainda ontem, quando decidi escrever esta nota, durante uma visita a pessoa amiga, na preparação dos workshops de fotografia contemplativa para Fevereiro, comentávamos as surpresas que o sol nos pode proporcionar. E ontem mesmo, rasgando um céu cinzento de chuva, o sol já no caminho para Ocidente presenteou-nos com uns raios atrevidos passando a cortina de nuvens. De repente a paisagem da Serra de Sintra ganhava outros tons. Essa investida do astro-rei não chegou para ganhar direito a mostrar os seus dotes no fim do dia, mas alertou-me, uma vez mais, para a necessidade de sempre ter uma câmara por perto.
Melhor do que ter o melhor equipamento do mundo... que se deixa em casa, é ter uma câmara que se carrega para todo o lado. Se gosta realmente de fotografia tente inclui-la como actividade no seu dia a dia. é o que prego e o que faço na generalidade dos casos. Nem sempre nem nunca é uma boa máxima a seguir nestas coisas.
Digo sempre às pessoas com quem converso sobre fotografia que o maior obstáculo a uma maior proficiência na actividade é... a falta dela. Mesmo com uma compacta, das que não são estúpidas e colocam um entrave tecnológico à liberdade criativa, é possível, torna-se possível integrar a fotografia no quotidiano em vez de a ter como uma actividade de fim-de-semana... quando a família deixa. De fotografar clips no escritório na hoa de almoço - reduza o tempo de refeição e dedique algum ao exercício de VER - até fotografar toda a actividade na cozinha de casa enquanto prepara o jantar - já viu aquela foto do porato acabado de fazer, o detalhe da faca do pão com migalhas e fatias cortadas, e tanta coisa mais? - o potencial de assuntos fotográficos está em redor de nós. em todas as direcções.
É isto que tento dizer às pessoas sempre. Porque quanto mais rpaticarem, com coisas simpels, ao alcance de todos, mais preparados estarão para os grandes momentos em que se fazem aquelas fotos inesquecíveis.
Para que isso suceda é necessário Olhar (Olhar foi o nome de um suplemento semanal de fotografia que nos anos 80/90 mantive no jornal A Capital, uma prática hoje esquecida pela generalidade dos jornais e revistas, que preferem escrever, muitas vezes disparates, somente sobre os megapixéis de cada nova câmara). Quero dizer, realmente OLHAR. Vejo, em algumas tarde de regresso a casa, quando o Sol dança no horizonte a caminho do mar, que as pessoas conduzem sem se aperceberem do espectáculo grátis que têm, todos os dias, diante de si. é das poucas coisas que este Governo ainda não taxou, calculo... Mas as pessoas não vêem. E não é necessário ficar a olhar até o carro que conduzimos embater no da frente, basta um simples segundo de apreciação do magnífico Teatro do Céu para nos sentirmos reconfortados após um dia que até pode ter sido mau, no emprego.
Quando apanho um dia com o sol a prometer espectáculo apresso-me a chegar a casa. Existem muitos outros pontos de onde é possível fotografar um excelente pôr-do-sol, mas a minha janela da cozinha (e da sala, mas é na cozinha que estou mais tempo...) é um miradouro ímpar. A paisagem durante o dia é de uma massa de prédios ao jeito dos subúrbios, sem nada de particular - excepto um pequeno campo com ovelhas, paradouro de garças, gaivotas, uma ou outra rapina e algumas aves curiosas - mas ao cair da tarde a sombra da Serra de Sintra, com o palácio fantástico erguido no topo de um antigo cone vulcânico, introduz uma magia própria que nos devolve as imagens românticas de uma Serra da Lua. É possível imaginar o peso que essa paisagem terá tido, outrora, nos que elegeram a Serra como local de culto, última fronteira antes de o sol se deitar no mar. São as fotografias dessa visão que nos deixa suspensos numa espécie de meditação sobre o que é a Natureza que divido consigo, leitor, neste artigo.
Algumas das imagens, devo dizer, porque a câmara fotográfica está sempre pronta para estes momentos do entardecer, qando estou na cozinha a preparar o jantar para a família - cozinhar é uma espécie de momento de repouso da actividade do dia - e tenho uma colecção de fotos destes fins de dia. Estes exemplos servem para mostrar que não é necessário sair de casa para fazer excelentes fotografias, basta saber olhar em redor e aproveitar as oportunidades. Sei que um dia, se abandonar esta casa, vou ter saudades desta vista, mas sei também que quando a vender usarei estas fotos como primeiro argumento de venda. Alguém quer comprar esta vista? Ou alguém quer um calendário com estas vistas, para substituir uma janela de cozinha assim?











































































