Prática
Exotismo à porta de casa
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- Publicado em 26-08-2011
A ideia de que é necessário viajar para lugares distantes para encontrar exotismo é uma falácia das agências de turismo e das revistas de viagens. Efectivamente, o exotismo vive paredes meias com cada um de nós, atravessa-se ao caminho de quase tantos muitas vezes. Só que de o vermos tantas vezes deixou de parecer-nos exótico. Mas se recordarmos os dias de criança talvez recuperemos essa magia. Na fotografia também.
As agências de viagens que nos vendem a nós o exotismo do Oriente vendem aos que de lá são o exotismo do que temos aqui. Quero com isto dizer que um ocidental ao ir fotografar pessoas nas ruas na Índia tem a mesma experiência que um bando de turistas japoneses (ou indianos) ao atravessarem uma típica aldeia portuguesa. Ambos assestam o aparelho fotográfico com a mesma excitação. Portanto, o que uns tomam como normal para outros é uma novidade e tema merecedor de registo fotográfico.
Talvez por estar consciente disso mesmo e preferir descobrir o que tenho perto de casa em vez de me iludir com a ideia de que só serei feliz em destinos exóticos distantes, bastam-me alguns quilómetros de estrada e estou no mais exótico dos lugares. Quem já experimentou a Romaria da Senhora da Agonia, no Minho - sobre que escrevi algumas notas no meu recente eBook, MINHO - Roteiros para Fotógrafos - por certo sabe do que falo. Com um percurso jornalísitico e fotográfico que me levou a debruçar-me sobre festas tão estranhas como os Encontros de Medicina Popular em Vilar de Perdizes (revista Sábado em Outubro de 1988) ou as Festas do Espírito Santo no Penedo, na Serra de Sintra (revista Mais em Julho de 1985), tenho, entre tantos outros destinos assim, a Festa de São Mamede de Janas como uma das minhas romarias de eleição.
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Evento em torno de misteriosa capela circular a cuja desmontagem assisti no decorrer de 1988/9, quando os arqueólogos a escavaram em busca de pistas (revista Sábado, Março de 1989), a festa de S. Mamede de Janas, patrono dos animais, realiza-se a 17 de Agosto. Durante anos, com trabalhos publicados desde o Diário de Notícias ao Correio da Manhã ou A Capital, entre outras revistas e jornais, acompanhei as festas, fotografando, registando, apreciando a invasão dos plásticos sobre os frutos da terra, na transformnação do que era uma feira rural e agrícola, em que se vendiam alqueires de cereais, num evento frequentado por "tias da Linha" e vendedores de alguidares de plástico. Foi em S. Mamede de Janas que conheci António Variações, que ali foi dar um espectáculo numa edição. Portanto, não podia haver mais exótica festa nacional.
É tudo isso que continua vivo, mesmo que sem as músicas de Variações. E S. Mamede de Janas continua a ser um lugar exótico, quer pelas histórias que circundam a capela, misturando ideias de bispos rurais do Priscilianismo à hipótese de Francisco de Hollanda ter traçado a volumetria do templo. O que se sabe é que o gado outrora entrava na capela para ser benzido, mais tarde só rodava três vezes em redor da ermida, e hoje, mesmo se alguns cavalos fazem esse troço do ritual, os animais em currais no bosque são benzidos pelo pároco local. Que, fruto dos tempos, benze tudo, de cágados, a aves, pequenos mamíferos... e até motocicletas... Querem mais exotismo do que ver um representante da Igreja, de batina vermelho vivo, aspergindo água sobre porquinhos da Índia, burros zurrando, cães, gatos, periquitos e mesmo pessoas?
As tradicionais fitas de nastro coloridas, que se compram às dezenas e se enrolam no pescoço, corno, braço, o que quer que seja da pessoa, animal, ou, tendência moderna, do veículo de duas rodas que se quer garantir que terá um bom ano, trocam de mãos velozmente no telheiro frontal da igreja. No outro extremo um cacho, crescente, de velas ardendo sugere promessas pagas, a devoção transformada fogo e cera, para fotografias que são momentos únicos dos reflexos exóticos de uma manifestação religiosa. E no interior do templo, a que se chega franqueando uma porta ladeada por letreiro onde se lê "não fotografe" - mas devia ler-se não fotografe com flash, o verdadeiro culpado da proibição - o retiro espiritual esperado peca pela ausência. As pessoas sentam na Casa de Deus e se algumas tentam o recolhimento, muitas conversam ali o quotidiano das suas vidas. São actores, sem o saberem, de uma fatia mais do exótico de todos os momentos daquele evento: quando o templo deixa de receber a missa, que se deslocou para o pinhal mais abaixo, em anfiteatro montado de tábuas e tubos metálicos, a distância certeira para dissipar os barulhos da barraca de comes- e-bebes de que escorrem para secas gargantas imperiais de Sagres, emergindo de uma torneira pingando.
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É tudo isto que se encontra em S. Mamede de Janas, e mal seria que um fotógrafo o não aproveitasse. Romaria que conheço desde pequeno, pela mão do meu pai, que ali me levou, foi anos mais tarde que voltei, à ermida e à festa, por outras razões: a escrita de histórias e a fotografia para ilustração da mesmas ou para a Câmara Municipal de Sintra. Ano após ano, até 1993, regressei a Janas. O nascimento do meu filho mais novo a 17 de Agosto introduziu um hiato nesse hábito, que se tornou esporádica visita. Em 2008 retomei, de alguma forma, a metrómona regularidade, pelo que a colecção de imagens começa a ganhar volume e a sugerir várias opções de trabalho, do eBook a um projecto maior. Não sei. Só sei que voltar a S. Mamede de Janas tem um sabor especial, este ano com o meu filho mais novo a cruzar a barreira dos 18 anos, etapa importante da vida. Que celebrei à minha maneira, depois de passar a manhã com ele, impregnando-me dos cheiros únicos desta festa que é um dos rituais mais exóticos que se pode ter. A dois passos de minha casa, dando razão à minha premissa inicial: o exotismo está entre nós. Espero que as fotos, ue registam momentos das romarias de 2010 e 2011, e o texto o convençam disso mesmo, caro leitor.











































































