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Prática

Atrás da baliza

fotjornalismo e futebolA Fotodigital arranjou as condições para um leitor e colaborador ir ao futebol. Não nos lugares do público mas junto das balizas. Viver a experiência dos fotógrafos que por lá andam. Eis a história de Rui Farinha. Em fotos e texto.


Fotografar é como andar de bicicleta. Mas quando a 3 de Fevereiro me chegaram as devidas credenciações (indispensáveis para este artigo) e o jogo de futebol “logisticamente” mais próximo era o FC Porto vs SL Benfica, ocorreu-me que o meu último “passeio” no fotojornalismo desportivo, tinha sido há 25 anos. Lembrei-me das palavras de um fotojornalista nascido nessa altura, Francisco Rivotti, que partilhou connosco no seu artigo publicado na revista Foto Digital nº 69 (Junho 2008): “…rebolei sem sono toda a noite na cama a pensar no assunto, as horas passavam e eu sabia que se aproximava a aventura…”. Fazendo o papel de comprimido contra a insónia ocorreu-me ainda Mark Twain (escritor e humorista norte-americano): “ Coragem é a resistência ao medo, o domínio do medo, e não a ausência do medo”.

E assim foi. Dia 8 de Fevereiro lá estava, às 17:45, no estádio do Dragão, para fotografar os fotógrafos que fotografam o futebol. Contei com o sábio aconselhamento prévio ( e apadrinhamento) do Luís Vieira (fotojornalista do jornal Record, ver artigo na revista Foto Digital nº 67 de Abril de 2008), que me alertou para os três factores chave (na sua opinião) para o sucesso da fotografia desportiva: localização, antecipação, preparação. Foi assim que decidi ordenar o texto que se segue.

Localização

Tudo começa com o sítio do campo (em zona previamente reservada para o efeito), onde o fotógrafo decide marcar como seu banco, o local onde pretende ficar. Quando cheguei, 01H e 45M antes do inicio do jogo, no local previamente indicado como ideal pelo Luís, já lá estavam 5 bancos. E eu a pensar que tinha chegado cedo de mais. Como curiosidade, saiba o leitor que em 2006, quando do Campeonato do Mundo, os fotógrafos portugueses estavam à porta do local de credenciação 9 horas antes do jogo Portugal/Inglaterra, a fim de garantirem o melhor lugar no campo .

O canto junto à bandeirola é efectivamente um local onde o fotógrafo consegue um visão mais abrangente.  No diagrama nesta página, para uma teleobjectiva 300 mm, a vermelho assinalei a zona onde qualquer foto , mesmo que registada em JPG, consegue um enquadramento e qualidade após ampliação. No entanto, a lente mais vulgar nos campos de futebol é a 400mm f/2,8, pelo que se consegue uma cobertura quase integral de todo o campo, com uma qualidade boa/razoável.

De salientar que deste local, se consegue também captar momentos e expressões dos treinadores. Mas a boa localização, e a antecipação da sua escolha muitas das vezes pode revelar-se 50% “errada”. Normalmente é escolhido o lado para onde a equipa da casa ataca, mas essa escolha só é válida, se a moeda do árbitro  der ao capitão da equipa da casa essa decisão. E depois o fotógrafo só pode mudar de local no intervalo...

Preparação

posição e cobertura num jogo de futebolExistem muitas áreas onde esta performance se evidencia. No equipamento, no cuidado com as condições climatéricas, protegendo antecipadamente as câmaras da chuva, etc. Uma delas, pouco vulgarizada, é a utilização de um rádio com auscultadores, para ouvir o relato do desafio que se está a fotografar. Quando em 2004 o malogrado Mikolas Feher sucumbiu no estádio de Guimarães, contou-me o Luís Vieira que foi pelo rádio que ouviu, pois nesse momento os escassos 5 graus de visão da sua teleobjectiva, estavam concentrados numa jogada, para o lado oposto.

A roupa com que se está vestido é também um factor de preparação. No estádio do Braga, por exemplo, a amplitude térmica é enorme. A especificidade do local (o facto de ter sido uma pedreira), faz com que ao chegar estejam por exemplo 15/17 graus, e à hora de começar o jogo, ao nível do terreno 4/5 graus. E chuva, vento, ou sol intenso é para suportar quase sempre durante 2H 30M, e às vezes mais.

Descansar no intervalo, só para as equipas. O fotógrafo (alguns logo ao fim de 15 minutos já estão a descarregar imagens do cartão), têm os 15 minutos do intervalo para editar e transmitir uma dúzia de imagens para a sua redacção.
A fotografia só têm valor se for para ser vista, e se a minha agência não a tiver, a concorrente têm...

Sobre esta “salutar” competitividade, ocorreu-me um facto de que neste dérbi do dia 08 de Fevereiro, foram captadas aproximadamente 50 mil fotografias (estavam cerca de 45 a 50 fotógrafos, “batem” em média 1.000 a 1.200 “chapas” cada um).  Como é que se consegue “aquela” fotografia que mais ninguém têm ?  Como é possível ser criativo ?

Antecipação

Sempre !!!  Na chegada ao estádio, na percepção do corte, na preparação do jogador para a recepção da bola, ou do remate, na focagem, no disparo, etc. Recordo-me de um golo, marcado após 6 minutos do início da partida, em que o colega do meu lado direito, estava ainda em “chimping” (verificando as suas primeiras fotos) em que no momento eu já tinha o jogador enquadrado e focado, tendo registado toda a sequência do remate, e o mesmo somente “desabafou” desiludido: olha, foi golo…

Se eu não me tivesse antecipado, hoje também não tinha as imagens. Um dos exemplos mais comentados sobre esta questão, é o facto de na final do campeonato do mundo de 2006 estarem presentes os 75 melhores fotógrafos do mundo em futebol, e curiosamente ninguém têm a fotografia do momento inicial em que o jogador Zidane deu a célebre cabeçada no adversário italiano, Materazzi.  E isto aconteceu, porque todos estavam “focados” na bola, e este momento  aconteceu num sítio oposto ao onde estava a bola. Acontece.

Por fim, e talvez porque recomecei a fotografar desporto, acrescento mais um factor de sucesso: Paixão. Por fotografar e por partilhar todos os dias com os leitores o resultado do seu trabalho. Esta poderá não ser uma opinião unânime, pois alguns dos fotógrafos trabalham na área há 15 e 20 anos, e dificilmente têm dias de serviço em que não seja mais um dia, do mesmo. Recordo uma caixa no artigo da Fotodigital sobre o Luís Vieira:

“Um fotojornalista tem dois discursos para trabalhar: têm de saber o que a escrita traça das histórias e aplicar isso às fotos que tira. É um exercício complicado, que exige mais do que apontar e disparar. É essa capacidade para reinventar a fotografia todos os dias, a vontade de fazer diferente, que torna a profissão naquilo que ela é: um labor de amor...e de paixão”

 



Para os leitores mais “apaixonados” pelo futebol, deixo-vos uma galeria, onde poderão visualizar algumas das minhas “experiências”, em cerca de 9 jogos, (www.flickr.com/photos/foto-digital1), a que tive o privilégio de estar presente e ser acarinhado por todos os restantes profissionais, que me apoiaram, e aos quais, sem distinção, agradeço.

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